“The Raid” é cinema de ação em seu melhor

8 dez

Desde que o trailer de The Raid rodou pela internet há alguns meses atrás, o filme ganhou o apelido informal, nos sites brasileiros, de “Tropa de Elite da Indonésia”. Diferentemente do filme brasileiro, no entanto, The Raid não é um thriller político, não tem um olhar sociológico mais apurado, não faz nenhum comentário sobre a situação do tráfico de drogas na Indonésia e muito menos sobre a forma como a sociedade local lida com o problema. Na verdade, a única semelhança com o filme de José Padilha é o fato de trazer, como protagonistas, membros de uma tropa de elite. Então o filme indonésio é ruim por não ter maiores ambições? Não, de maneira alguma.

Como cinema de ação, The Raid é praticamente impecável. Sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes de ação dos últimos anos.

Na verdade, a hipérbole não vale muito: hoje em dia a maioria dos exemplares do gênero com os quais o público em geral pode ter contato (ou seja, os exemplares norte-americanos) vem sofrendo com um apego exagerado ao politicamente correto. Isso quando não são simplesmente estúpidos. Não é de hoje que é preciso olhar para outras cinematografias para achar algo mais consistente e original em termos de ação, como aconteceu, por exemplo, com o cinema de Hong Kong dos anos 90 e, mais recentemente, os filmes estrelados por Tony Jaa vindos da Tailândia (como Ong Bak e O Protetor).

É difícil advogar em favor de um filme que não se preocupa em ser algo além de cinema de gênero para pessoas que não curtem o gênero em questão. Ao assistir o trailer, você provavelmente saberá se quer assistir ao filme ou não, e devo dizer que o trailer é uma das peças de marketing mais sinceras e concisas que vi em algum tempo*. Então não perderei tempo aqui tentando explicar porque uma cena de luta bem executada pode ser extremamente divertida (algum dia tentarei, quem sabe).

*(Para mim, esse trailer e o de Os homens que não amavam as mulheres são ótimos exemplos de peças que vendem o tom do filme e não a trama, algo raro no mundo dos trailers atuais)

Um dos fatores que torna The Raid exemplar é, curiosamente, algo que normalmente é um mau sinal: sua trama é extremamente simples e suas viradas (telegrafadas praticamente desde o começo do filme) são pouco originais. A trama do filme inteiro pode ser resumida em poucas linhas: uma tropa de elite da polícia da Indonésia tenta desbancar um dos maiores traficantes de drogas do local, invadindo o prédio onde ele se entoca. O problema: aparentemente todos nesse prédio são mestres em artes marciais e possuem armas (de machetes a metralhadoras). E é basicamente isso. Antes dos dez minutos de filme eles já estão dentro do prédio e, antes dos vinte, o caos toma conta e o plano da tropa vai por água abaixo quando eles se encontram encurralados.

Nesses primeiros minutos, o diretor e roteirista Gareth Evans tenta traçar o básico de sua trama com uma simplicidade que, se não é sofisticada, pelo menos se mostra econômica. The Raid é o tipo de filme que apresenta seu protagonista em uma cena onde ele faz abdominais, reza, diz a esposa grávida que a ama e faz uma promessa ao pai em um espaço de tempo de, talvez, três minutos. Enquanto isso o vilão nos é apresentado em uma cena onde executa desafetos com tiros na cabeça e um martelo. Seria de uma pobreza narrativa tremenda se não fosse, na verdade, bastante eficiente. Mérito de Evans, que consegue a proeza de transformar o que poderia ser considerado desleixo em economia já que, para ele, o que importa é o que vem depois disso.  E é quando o caos toma conta da narrativa e a tropa precisa se dividir dentro do prédio que o filme se mostra em toda sua dimensão. E se é para falarmos em fazer os clichês valerem a pena, eis uma frase típica de capa de VHS mas que, nesse caso, cai como uma luva: The Raid tem um ritmo frenético que não larga o espectador até a última cena.O que fica pouco claro no trailer é que The Raid é muito mais um “filme de luta” do que um “filme de tiro”, se me permitem a generalização boba.  E o Google nos diz que o filme usa uma arte marcial asiática chamada Silat que, segundo o Wikipedia, “tende a se concentrar em pancadas, manipulação articular, armas brancas, arremessos, técnicas baseadas em animais, ou alguma combinação destes”. E não é apenas esse tipo de luta que traz algo novo ao filme: Evans e seu grupo de dublês (malucos, por sinal) fazem questão de que as lutas não sejam apenas meras coreografias elaboradas, como em muitos filmes, mas eles querem que o espectador sinta que os personagens têm a intenção de se machucar de verdade, algo que acrescenta tensão a cada luta. E, tenha certeza, não é com um mero golpe de caratê nas costas que os personagens ficam desacordados aqui. Ossos quebrados, “machetadas” e tiros a queima roupa são a principal causa de óbito.

Outro mérito do filme é a forma como as lutas são filmadas. Evans faz questão de sublinhar cada impacto, com uma câmera na mão que parece sentir cada soco mas que, curiosamente, é muito menos nervosa do que muitos blockbusters americanos que querem passar a idéia de dinamismo. Evans decupa suas cenas quase sempre em planos médios e de conjunto, tentando enquadrar todo o corpo dos personagens. Da mesma forma, a montagem se mostra muito menos picotada do que o normal para o gênero e algumas lutas tem planos bem longos. O que demonstra duas coisas: 1) a pouca quantidade de cortes não está vinculada necessariamente a um ritmo lento e 2) a confiança de Evans em seu grupo de dublês. E o fato de ninguém ter realmente morrido na filmagem desse filme é algo que aumenta o feito do que foi capturado pelas câmeras.

Uma das várias cartas na manga do filme é o ator Iko Uwais que interpreta Rama, protagonista da trama e um dos membros da tropa que invade o prédio. Dada a economia narrativa a que me referi, muito da caracterização de Rama depende do carisma natural de Uwais que, em The Raid, faz apenas seu segundo trabalho como ator. E vamos apenas torcer para que ele continue por lá e não se deixe levar por Hollywood e sua tradição em transformar astros de ação em bobos da corte como fez com Jackie Chan, Chow Yun-Fat e Jet Li, por exemplo.

Semana passada, o site Deadline publicou a notícia de que a Sony Pictures Classics irá lançar o filme nos cinemas dos EUA entre Março e Junho de 2012. O que é uma boa notícia para o público brasileiro que, agora, acaba tendo mais chances de ver o filme no cinema, nesse mercado ainda muito pautado pelo que os norte-americanos gostam ou não de assistir. E The Raid é claramente o tipo de filme que vale a pena assistir em um cinema. Vamos ver se algum distribuidor brasileiro acredita no filme que, com certeza, faria muito dinheiro se vendido da forma certa.

*Filme assistido no Festival do Rio 2011.

Veja também:
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“X-Men: Primeira classe”, de Matthew Vaughn

A luta do herói contra o sistema em "Tropa de elite 2"

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2 Respostas to ““The Raid” é cinema de ação em seu melhor”

  1. stelabw sábado, março 3, 2012 at 12:37 #

    Reblogged this on MAKONGO and commented:
    Quem é angolano algum dia já ouviu falar de Ong Bak, pois é, o actor que estrela o filme, Tony Jaa está neste magnífico filme, parabéns ao Complexo C que sabe tão bem encontrar cinema que inspiram

  2. PLANTA (Bruno Araujo Cunha Teixeira) sexta-feira, março 9, 2012 at 13:39 #

    PARABENS PELA RESENHA DE RAID!!!!! SUPER DETALHADA E MUITO BEM ESCRITA OBRIGADO POR ME MOSTRAR O QUE O FILME ‘E AGORA VOU FICAR AINDA MAIS LOUCO PARA ASSISTIR.
    PARABENS NOVAMENTE TEXTO MUITO MUITO BEM ESCRITO!!!

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