“Um sonho possível” é um típico conto americano

28 mar

Sandra Bullock conseguiu se redimir de anos seguidos de fracasso com um papel no despretensioso Um sonho possível (tradução horrorosa para The blind side). E como Hollywood adora exemplos como este, ela levou o Oscar e uma batelada de prêmios ao interpretar Leigh Anne Tuohy, uma mulher branca, rica, cristã e republicana que adota Michael Oher, ou “Big Mike”, um rapaz negro, sem teto e semianalfabeto, que vira um astro do futebol americano. Baseado em uma história real, o filme fez mais de US$ 250 milhões em bilheteria só nos Estados Unidos, o que é um feito e tanto para uma produção que só custou US$ 30 milhões.

Sandra Bullock em uma história de rendenção

Sem efeitos visuais e com apenas um nome famoso no elenco, The blind side conquistou a América porque tem aquilo que o americano mais gosta de ver: histórias de superação. E de quebra, como pano de fundo, um dos esportes mais populares no país. O filme mostra que, nos EUA, qualquer um pode ter sucesso, afinal, o país é a “terra da oportunidades”, como eles gostam de dizer.

A penca de prêmios que Sandra Bullock levou pode até soar meio exagerada, ao melhor estilo “Maria vai com as outras”. Mas é ela que brilha em The blind side, e o filme parece ter sido feito mesmo para isso. Linda, loira, sem afetações, sem gritaria, sem nudez ou cenas de sexo, Sandra Bullock mereceu todos os prêmios porque conseguiu construir uma personagem cativante por captar sua humanidade, ou seja, seus defeitos e virtudes. Toda vez que ela aparece, enche a tela. O roteiro, apesar de banal, é envolvente, e emociona algumas vezes sim. O que cansa mesmo é a direção nada criativa de John Lee Hancock, que opta pelo mais óbvio para causar emoção. Por outro lado, Hancock conduz o jovem Quinton Aaron com sensibilidade. O diretor trabalha com eficácia o contraste entre a aparência e a personalidade do rapaz: um jovem simples, de fala mansa, meigo, que quase pede desculpas por existir no corpo de um brutamontes. A cena em que ele vai fazer compras com Leigh Anne é uma das que melhor retratam esse paradoxo.

Um conto americano

Sem muitas surpresas durante a projeção, o que importa para The blind side é o caminho percorrido pelos dois personagens, como eles amadurecem juntos e alcançam a redenção. Assim como fez a própria Sandra Bullock.

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8 Respostas to ““Um sonho possível” é um típico conto americano”

  1. Raphael segunda-feira, março 29, 2010 às 03:53 #

    “Cuidado com SPOILERS”

    Olha, achei o filme beeeem fraco o que foi agravado qdo o filme tem a chance de transformar a trama em algo mais consistente e ele desperdiça. Lá pro final tem uma cena da Bullock com o marido, qdo ela se questiona se td oq eles fizeram pelo menino nao foi uma espécie de “culpa branca” e o marido vira pra ela e fala “você é uma boa pessoa”, e tá tudo resolvido!!!

    Além de endereçar a questão da forma mais óbvia possivel (parece q sutileza não é coisa pro diretor como vc aponta tb no seu post), ele não discute absolutamente nada com isso! E no final das contas ninguém daquela familia tem um arco dramatico realmente, pq afinal de contas eles nao mudaram de opinião acerca de suas ações no decorrer do filme. Desde o começo simplesmente não há conflito: o marido apoia a mulher incondicionalmente e curiosamente os filhos tb. Nisso eu tenho q discordar de você, Matheus: acho q a Leigh Ann não amadurece nem chega em nenhuma redenção.

    Curiosamente, uma das coisas que estava gostando durante o filme era exatamente como ele vai fugindo dos clichês desse tipo de filme (por ex: a comunidade dá as costas pra familia q abriga o menino e passa a hostilizá-los, os amigos criminosos e/ou o menino assaltam e/ou cometem algum ato de violência contra a familia, etc). O problema eh q ele vai desviando dos clichês e sai em lugar nenhum.

  2. Gabriel terça-feira, março 30, 2010 às 06:28 #

    Na revista Piauí (não lembro se em março ou abril) saiu uma reportagem muito interessante sobre a escolha dos títulos de filmes no Brasil. Fica claro que é uma escolha mercadológica. Mesmo que eles não entendam muita coisa do que o mercado quer.

    Mas dá pra ver também a dificuldade. Muitas vezes, eles escolhem o título sem ver o filme, com uma sinopse muito rasteira. Aí dá m… Amor sem Escalas e Guerra ao Terror não têm nada a ver. Mas, no caso de The Blind Side para Um Sonho Possível, bem, ficou um título cafona para um filme igualmente cafona. Tô com um pressentimento que vai virar clássico da Sessão da Tarde.

    Concordo bastante com o Raphael, tudo no filme é perfeito demais. Não tem conflito. A dificuldade do cara em se abrir, o problema do bairro, da mãe biológica, dos filhos, as amigas da mulher (aliás, cenas horrorosas). Tudo é rasteiro demais. O filme não trabalha nada.

    Logo que ela desce do carro para falar com o tal Big Mike, o marido fala no carro: “Ela vai dar um rumo pra vida dele” (ou qualquer coisa assim).. e pronto. Sem discussão. Fora isso, o personagem da Sandra Bullock devia ser mais irônica, ter mais boas tiradas. O marido poderia ser menos banana. O garotinho avançado para sua idade não é engraçado. E a irmã, então, completamente inexpressiva.

    Um dos argumentos que eu li sobre a Sandra Bullock ganhar o Oscar é que esse papel era desafiador para ela. Enquanto a Meryl Streep não teve nenhum trabalho para fazer Julie e Julia. Bem… a Sandra Bullock fez uma atual bem ordinária. O filme não tem uma emoção, um stress. Na hora que o técnico fala que foi ele que treinou o moleque, ela faz uma cara tão exagerada… sei lá… eu achei ela normal.

    Acho que você ter falado tão bem do filme tem a ver com aquela conversa que a gente teve no ônibus. Você queria tá cansado de falar mal e aí resolveu se desafiar a falar bem desse filme.

    Bem, eu só quero ver agora The Last Station. Achei a ideia de fazer um filme sobre a mulher do Tolstoi ótima. Po, o cara doou tudo pros mujiques, uma classe inferior… imagina a reação da mulher. hehehe

  3. matheuscarrera terça-feira, março 30, 2010 às 14:02 #

    Acho que pode ter sido isso, sim, Gabriel. Aproveitei um pouco de simpatia que tive com o filme, e principalmente com a Sandra Bullock, para ver explorar os pontos mais positivos do filme, ao invés de ficar só falando mal de quase tudo que assisto.

    De qualquer forma, gostei do filme sim. Claro que se fosse entrar em muitos detalhes (o que tento não fazer nesse blog), tinha muita coisa para falar. O artificialidade do garotinho, a inexpressividade do marido e da filha, a falta de motivação, como o Raphael apontou, e de justificativa para as tais boas ações, simplesmente “porque eram a coisa certa a fazer”, esse tipo de coisa, enfraquecem o filme. Fica a história de uma família boazinha que resolve fazer caridade e pronto. O único momento em que isso é questionado, além da tal “culpa branca”, é quando aquela mulher (que não sei de onde ela é) interroga Big Mike e o faz duvidar das boas intenções da família. A situação é completamente sem sentido e muito forçada.

    Pronto, aqui estou eu falando mal de um filme de novo…rs Enfim, acho que a minha simpatia perante o filme foi por ele não ter correspondido às minhas expectativas. Sabe quando se espera muito de um filme e ele te decepciona? Foi justamente o contrário. Achei que seria um puta dramalhão exgaredo, cheio de interpretações afetadas, muitas lágrimas e lições de moral. Alguma coisa disso ele até tem, mais soube amenizar. E muito se deve à leitura que a Sandra Bullock fez da personagem, eu acho.

    • Raphael quinta-feira, abril 1, 2010 às 04:50 #

      Matheus, uma dica de amigo então pra vc não ficar sempre falando mal dos filmes: Veja filmes melhores!!

      🙂 Tô zoando.

      Mas, agora é sério, pq vc não faz alguns posts de vez em qdo sobre filmes clássicos? Ou posts tentando explicar pq esses filmes na coluna da direita são os seus favoritos?

      Assim dá uma arejada.

      • Midori domingo, abril 4, 2010 às 18:21 #

        Concordo com o Raphael. Vc não precisa fazer análise só de filmes novos. Poderia muito bem pegar os filmes antigos e nem os tão antigos assim, sei lá, talvez pegue um punhado de filmes por tema e disserte sobre ele. Várias possibilidades.

        Eu mesma tenho tentado fazer isso, falar dos filmes clássicos que eu adoro, mas, não sei qual é a maldição, não tenho conseguido terminar de escrever um postzinho sequer. Sempre paro no meio. Estou com vários pela metade. rs

  4. Gabriel quarta-feira, março 31, 2010 às 05:09 #

    A tal mulher era da NCAA, que é tipo a CBF das universidades de Futebol Americano. Não é a mesma coisa, mas é ela (a entidade, não a mulher) quem organiza o campeonato. A mulher tava ali pra evitar que gente faça caridade com negões gigantes só para ganhar campeonatos de futebol americano.

  5. Midori domingo, abril 4, 2010 às 18:14 #

    Primeiro, não há redenção alguma. Como o próprio marido banana diz, a personagem de Sandra Bullock é uma “boa pessoa”. Ou seja, se ela é uma boa pessoa e costuma dar rumo na vida dos outros, não precisa de redenção. Achei a desculpa da “culpa branca” bem fraca, porque – ela é branca, tudo bem – no caso dela não existe culpa alguma. Esse pretexto só funcionaria caso ela sentisse algum tipo de vergonha por proteger e adotar um menino negro.

    Segundo, Sandra Bullock não mereceu de forma alguma o Oscar de melhor atriz. Ela estava tão bem quanto em Velocidade Máxima. Fez o essencial, o que tinha que ser feito. Qualquer outra no lugar dela teria feito o mesmo, mas como não seria Sandra Bullock não teria ganhado o Oscar. Na boa, ela só ganhou porque nunca mais vai pegar um papel dramático e, ainda, um papel dramático de que a Academia gosta. Foi um prêmio de consolação do tipo: “Contente-se com isso aí porque vc vai voltar pros fracassos de sempre.” Não acho correta esta filosofia de “vamos dar pra ela, coitada”, assim como não acho certo Meryl Streep ser indicada todos os anos e não ganhar. A mulher é sensacional, por mim ela ganharia sempre, não tem como competir com uma atriz assim. E como sempre ela foi a melhor este ano, com a interpretação da chata da Julie (ou Julia, eu nunca sei quem é quem). Não vi Helen Mirren. E acho que a Precious estava tão confortável no papel que até parecia ela mesma (mas ela está muito bem na cena em que descobre ter aids e discute com a professora na escola: “O amor nunca me deu nada”), mas é iniciante demais, enfim. Senti falta mesmo de Marion Cotillard, em Nine. Ela estava muito bem mesmo.

    Terceiro, não existe trama simplesmente. A história sai do nada e atinge lugar algum. Achei que poderia haver um conflito com a filha patricinha, talvez ela gostasse de ter um irmão negro, talvez zoassem ela na escola, talvez, whatever, qualquer coisa. Mas que nada, os filhos são tão bem-educados que simplesmente acham tudo aquilo normal até demais. Até o pessoal do colégio é bem-educado demais, o próprio Big Mike faz o estereótipo de bode expiatório (pobre, negro, grandalhão, deficiente no aprendizado e desajeitado), mas eles não aproveitam isso.

    Apesar de tudo isso, achei o filme simpático. Mas não tenho qualquer argumento quanto a isso. rs

  6. Midori domingo, abril 4, 2010 às 18:17 #

    *talvez ela NÃO gostasse de ter um irmão negro (foi o que eu quis dizer)

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