Rango | Introdução ao Faroeste

31 mar

Todos amam a Pixar. Também pudera: o estúdio foi um dos principais responsáveis pela mudança de paradigma com relação aos filmes de animação. Os frequentes acertos do estúdio trouxeram vigor estético e narrativo a um gênero que, pelo menos no que diz respeito à Hollywood dos anos 90, praticamente se resumia às investidas cada vez mais burocráticas dos Estúdios Disney.

A estratégia aparentemente simples da Pixar de fincar as bases de seus projetos em histórias e personagens sólidos levou o gênero a sair do nicho infantil e, hoje, é comum escutarmos que “o filme agrada crianças e adultos!”.

Além da óbvia qualidade que os “produtos” com selo Pixar possuíam, um dos fatores que levou à hegemonia do estúdio nos anos 2000, no entanto, foi a leitura errada que os concorrentes que se aventuraram pela animação fizeram desse mote: para fisgar os adultos, encheram seus filmes com piadas que eram meras citações à cenas de outros filmes. O resultado, de modo geral, foram filmes irregulares que, em alguns casos, até entraram no imaginário da cultura pop (Shrek, talvez e, forçando muito a barra, A Era do Gelo), mas que não extrapolam seu próprio gênero como Os Incríveis e Toy Story.

Rango, dirigido por Gore Verbinski e a primeira experiência em longas de animação da Industrial Light & Magic (o famoso estúdio de efeitos especiais criado por George Lucas), parece se alinhar às intenções de filmes como Os Incríveis: ele entende que apenas parodiar uma cena de um filme é piada fácil.

O difícil é entender um gênero.

“Nenhum herói pode existir no vácuo”

De diversas formas Rango pode ser encarado como um exercício de gênero. No caso, o faroeste. A sequência inicial endereça essa questão de maneira brilhante: o camaleão, ainda sem nome, discursa para nós, espectadores, procurando uma história onde possa ser o herói. É um personagem sem objetivo e que, de fato, existe no vácuo. Não há história a ser contada e não se consegue ter noção de com qual nível de representação estamos lidando durante essa cena (em certo momento Rango embaça a “lente da câmera” que posteriormente se revela o vidro do aquário). É uma peça surreal, de fato. E é apenas quando o camaleão tem essa revelação (de que não há história sem conflito, sem objetivos) que o filme imediatamente toma seu rumo e esse personagem passa a ser um camaleão confinado em seu aquário que é jogado no deserto e precisa se virar pela sua própria sobrevivência enquanto, no caminho, tenta entender quem ele é de verdade. A sequência é primorosa tanto em texto quanto em execução e, se isso não é uma carta de intenções clara, não sei o que pode ser. É como se o filme propusesse um exercício consciente: vamos definir esse personagem através da cartilha do faroeste. Através de sua busca por identidade nós comentamos o gênero e o gênero define o que o personagem se tornará. De ‘estranho sem nome’ a herói.

E então, somos jogados nesse mundo paralelo onde diversos tipos de animais habitam essa cidade falida no meio do deserto. E a história segue os moldes de inúmeros faroestes: o ‘estranho sem nome’ chega à cidade e passa a se envolver com os problemas do local, sendo visto como aquele que pode trazer a paz. Mas sempre de forma irreverente: Rango é um ególatra e parte dos problemas que ele precisa resolver durante o filme são os criados por ele mesmo, o que também traz ecos da clássica estrutura de comédia do ‘herói por acidente’.

O grande mérito do filme é associar um arco dramático sólido a essa brincadeira com o faroeste: o camaleão sai do vácuo de seu aquário para se tornar, de fato, um herói após suas aventuras. E as cenas envolvendo o tatu profeta (voz de Alfred Molina) e a metáfora da estrada estão entre as melhores do filme não só por trazerem essa homenagem ao faroeste (o Espírito do Oeste é ninguém menos que Clint Eastwood) como por solidificarem o arco dramático de Rango. É só ao atravessar a estrada que ele consegue enxergar claramente os seus propósitos. É uma bela seqüência e quem diria que uma piada velha poderia render um momento de peso em um filme de animação?

"I once found a human spinal column in my fecal matter..."

Eu realmente não tenho como dizer com exatidão o que as crianças de hoje curtem ou não curtem. Mas Rango talvez seja a animação menos focada no público infantil saída dos Estados Unidos nos últimos tempos. É claro que é animação e tem muito humor físico, mas acredito que o filme aliene a maior parte do público infantil com suas digressões surrealistas e com a própria estética do filme como um todo (especialmente as formas e texturas de alguns personagens) que pode ser assustadora para as crianças mais novas. Além disso, o filme trabalha temas um pouco mais pesados que as costumeiras animações hollywoodianas. Há diversos tiroteios e personagens, tanto do bem quanto do mal, morrem. Além de momentos de humor negro diverso, como quando Rango deixa um filhote brincar com uma arma carregada, e nos interlúdios recorrentes com as corujas mariachi que, durante todo o filme, prevêem a morte de Rango, dando um toque tragicômico à narrativa.

Gore Verbinski é um dos diretores-operários mais bem sucedidos (e subestimados) de Hollywood. Apesar de não ter um estilo que se possa considerar como marcante, o diretor sempre assume seus filmes com uma segurança exemplar, mesmo em gêneros variados: filme para crianças (Um Ratinho encrenqueiro), terror (O Chamado) ou mega-blockbuster de aventura (a trilogia Piratas do Caribe). Mesmo depois do grande sucesso da trilogia, o nome do diretor ainda é pouco reconhecido.

Rango é um trabalho que soa como indulgência, mas que demonstra a capacidade de Verbinski de pensar gêneros. Se nos outros trabalhos o diretor inseria seu filme inteiramente dentro do gênero proposto, aqui ele parece querer caminhar para a metalinguagem. E o resultado é um filme que ao mesmo tempo em que joga sob todas as regras do faroeste o faz conscientemente, deixando claro ao espectador que sabe o que está fazendo. Como, por exemplo, no uso da trilha sonora de Hans Zimmer que não só emula trilhas famosas do gênero como, em alguns casos, sampleia momentos de outras trilhas como as de Ennio Morricone e a trilha de Sete homens e um destino. E o uso de uma guitarra por uma das corujas mariachi em certo momento do filme parodia o uso do instrumento que é a assinatura de Morricone em suas trilhas mais famosas.

Eu sei que não posso terminar esse comentário sem mencionar o nome de Johnny Depp, já que ele parece ser o principal chamariz comercial do filme. Antes, é bom dizer que o trabalho vocal do elenco como um todo está em sintonia com o propósito de Verbinski. Abigail Breslin (como a roedora estudante Priscilla), Ned Beatty (o prefeito), Bill Nighy (como o vilão Rattlesnake Jake) e Isla Fisher (como a mocinha Beans) fazem bons trabalhos com os sotaques e as entonações todas no lugar. Mas o show é mesmo de Depp que dá vida a todas as inseguranças e malandragens do camaleão e o enche de carisma. Por 100 minutos, Depp consegue nos fazer esquecer o intérprete burocrático que se tornou nos últimos anos e nos dá esperança de que melhores dias virão em sua carreira.

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4 Respostas to “Rango | Introdução ao Faroeste”

  1. Renata quinta-feira, março 31, 2011 às 23:30 #

    Raphael fica realmente inspirado na escolha das palavras quando gosta de um filme 🙂 Deu vontade de conferir, depois de anos sem eu ver nenhuma animação no cinema.

  2. João Neto domingo, abril 3, 2011 às 02:19 #

    Fui ver o filme hoje com a minha namorada. Não estava nem um pouco afim de ver esse filme, por mim teriamos visto qualquer outro, menos Rango. Acho que tinha pego um certo receio de animações, já que muitas outras me decepcionaram. Mas o filme me surpreendeu, foi tão bom quanto Toy Story 3. O filme é otimo do começo ao fim, a historia nos envolve do começo ao fim. Sem duvidas vale apena conferir!

  3. Thiago domingo, abril 3, 2011 às 13:58 #

    Esse filme parece ser muito bom mesmo.

    PS: Alguem pode me dizer qual o nome do filme que está no banner bo blog. Vi esse filme pela metade há muito tempo e nunca descobri o nome.

    • Raphael domingo, abril 3, 2011 às 15:44 #

      O filme dessa semana é “Clube dos cinco” (The Breakfast Club). Um dos meus favoritos dos anos 80.

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