Sucker Punch | Fetiches geek – The greatest hits

1 abr

Sucker Punch – Mundo Surreal talvez seja a coisa mais próxima de um musical que o diretor Zack Snyder (de Watchmen e 300) irá chegar. E, acredito, a analogia não é tão rocambolesca: o filme não só tem elementos de musicais clássicos aqui e ali (o cabaré, as cortinas se abrindo no início do filme e a primeira cena se desenrolando em cima de um palco fictício) como a própria estrutura da narrativa é pensada nesse sentido. Os interlúdios musicais onde os personagens começam a cantar e dançar aparentemente do nada são substituídos aqui por cenas de ação em mundos fantásticos.

E aí temos o principal problema do filme e que impede que ele se torne algo além de uma mera coleção de fetiches geek. Os interlúdios de ação do filme de Snyder não só não fazem a história andar como não têm peso dramático algum por duas escolhas desastradas de roteiro. Mas estou me adiantando.

É sempre bom quando um cineasta que trabalha dentro do esquema dos grandes estúdios norte-americanos consegue desenvolver uma estética própria. E talento para compor quadros e contar sua história visualmente Snyder tem de sobra. Após os sucessos comerciais de Madrugada dos mortos e 300, o diretor parece ter recebido carta branca para produzir o que quisesse. Watchmen até se pagou comercialmente, mas não foi o sucesso de público e crítica que a Warner esperava. Ainda assim, Snyder não só pôde realizar esse Sucker Punch como foi convidado a dirigir o novo reboot de Superman. Moral pouca é bobagem.

Com Sucker Punch, o diretor trabalha pela primeira vez com material não adaptado de outras mídias e o que vemos na tela parece resultado de uma certa auto-indulgência: Snyder quer encaixar todos os seus fetiches dentro de uma só história. Samurais, filmes de guerra, dragões e robôs compõem o cenário das incursões fantasiosas da protagonista. Curioso que, na primeira chance de apresentar idéias originais, o diretor apele tanto para imagens e símbolos de outras mídias como videogames, animes e HQs.

Como se pode esperar, o filme é visualmente impecável. Snyder põe todo seu talento na tela e constrói sequências de ação realmente inspiradas, pelo menos do ponto de vista técnico. Como, por exemplo, no ultra-virtuoso e longuíssimo plano do ataque das moças ao trem com robôs na última fantasia. Curiosamente, no entanto, são os primeiros quinze minutos do filme, quando Sucker Punch é praticamente um clipe musical ao som de covers de Sweet dreams (are made of this) do Eurythmics e Where is my mind? do Pixies, que o talento do diretor brilha construindo as bases da história praticamente sem nenhuma fala.

Na marca dos quinze minutos, o básico já está estabelecido: a protagonista Baby Doll (Emily Browning) vai parar em um hospício após matar acidentalmente sua irmã ao tentar defendê-la de seu padrasto malvado. E é então que Snyder, que divide o roteiro com Steve Shibuya, faz a sua primeira escolha equivocada: ele nos mostra que a protagonista passa por uma lobotomia e imediatamente corta para o que apenas podemos entender como um segundo nível de realidade que se passa apenas na mente de Baby Doll, onde vemos a cena da chegada da menina ao hospício ser reencenada. Só que, ao invés de ser trancafiada em um hospício por seu padrasto, agora ela é uma órfã que está sendo entregue por um padre a um cabaré e todos os personagens que vimos nas cenas anteriores recebem novos papéis: a psiquiatra (Carla Gugino) agora é uma espécie de coreógrafa que supervisiona os shows do local; o enfermeiro (Oscar Isaac) se torna o cafetão dono do lugar e as internas do hospício agora são as prostitutas/dançarinas do cabaré (interpretadas por Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung, formando um grupo malandramente multiétnico).

Não há nada de errado em trabalhar com níveis diferentes de realidade, muito pelo contrário. Diversas narrativas interessantes saem de estruturas desse tipo. Mas, em um filme como esse, que depende imensamente da empatia do espectador com a protagonista, surge um problema que se apresenta logo de cara: nós não tememos pelo destino da personagem já que o que se passa no cabaré não é estabelecido no filme como representação direta dos acontecimentos na realidade. Nós vimos que Baby Doll foi lobotomizada. Então o que está realmente acontecendo no cabaré? Estamos vendo uma representação da luta que se trava na mente de Baby Doll para sair desse estado pós-lobotomia? Ou o filme está tentando nos pregar uma peça e, ao final, Baby Doll encontrará forças para impedir a lobotomia momentos antes que ela aconteça? Ok, somos espectadores espertos e vamos dar o benefício da dúvida ao cineasta, esperando o desenrolar da história.

Mas não demora e Snyder faz sua segunda má escolha: ele associa as cenas de aventura com os momentos de transe em que Baby Doll entra ao dançar. Curiosamente, essa escolha faz sentido tematicamente, se formos considerar a tese de que Snyder quer emular os filmes musicais. Mas é a escolha que mais prejudica o filme. Toda vez que a protagonista dança, somos levados a um terceiro nível de realidade onde ela precisa cumprir missões que, assim diz um guru (Scott Glenn), dará a ela condições de fugir de onde se encontra. Essas sequências deveriam ser o coração do filme, e Snyder, como diretor, as ataca de peito aberto colocando em prática todas as suas fantasias de adolescente. Não estou dizendo que a existência delas é prejudicial ao filme, afinal eu entendo o apelo que mulheres bonitas em trajes sumários lutando contra robôs têm. Mas Snyder lembra um garoto ansioso em poder brincar com seus brinquedos e que se enrola na hora de construir as bases para que essas cenas sejam aproveitadas também por nós espectadores.

O problema é que todas as quatro grandes sequências de ação são esvaziadas de qualquer peso dramático pelas escolhas do diretor-roteirista e, já na terceira, o esforço soa repetitivo mesmo que a estética da coisa toda seja de tirar o chapéu. Enquanto elas duram, o espectador não teme por nada já que as garotas parecem intocáveis e, mais importante, as cenas não têm nenhuma relação com o que acontece no cabaré. A falta de jeito em lidar com essas cenas é tamanha que, na única vez em que o ‘sonho’ sofre alguma intervenção da realidade, Snyder precisa voltar ao nível do cabaré para mostrar determinada personagem se sacrificando pela missão para só então retornar à fantasia e reencenar o ato.

Fico pensando se o problema talvez não seja de montagem e não de roteiro. Mas creio que nenhuma montagem diferente poderia resolver essa questão. Outra opção de montagem iria apenas rearranjar a ordem do filme, começando a história pelo Cabaré. Mas isso, além de ainda não resolver o problema com a falta de importância das cenas de ação, nos daria uma virada no final clichê ao descobrirmos que o cabaré era só mais uma fantasia de Baby Doll.

É apenas no fim que descobrimos que, de fato, as experiências passadas por Baby Doll durante toda a parte no cabaré eram representações do que se passou entre o momento em que ela chegou ao hospício e a lobotomia. Mas tal revelação não é suficiente para que reavaliemos o filme. Na verdade, muito pelo contrário: na forma em que a história é contada, a decisão de Baby Doll pelo auto-sacrifício perde totalmente a força por, no momento em que ela ocorre, não a vincularmos com a decisão de se deixar ser lobotomizada.

No fim, Sucker Punch se torna um filme muito curioso ao percebermos claramente a intenção do diretor, mas vermos como essa intenção se perde em más escolhas. E não é desculpa o fato de que, desde o começo, o filme deixe claro que está trabalhando em um universo diferente da realidade e que, de modo geral, ele se enxergue como um conto de fadas.

No papel, a história tem bastante potencial: uma garota luta para sair da prisão física e psicológica em que se encontra através da fantasia. E é realmente uma pena que o filme se sabote dessa maneira porque, aqui e ali, pode-se enxergar pequenas tentativas de dar um polimento um pouco melhor à idéia geral do filme. A dinâmica entre as irmãs Sweet Pea e Rocket, por exemplo, pode ser encarada como uma representação da própria culpa que Baby Doll sente por ter matado sua irmã mais nova. Em outros momentos, pode-se até pensar que Snyder quer fazer algum tipo de manifesto feminista. A separação das posições de poder entre homens e mulheres é bem clara no filme. E o diretor parece consciente de que está brincando com fetiches essencialmente masculinos e questiona isso em determinada cena, quando presenciamos o ensaio de uma peça no cabaré onde uma personagem questiona o uso de uma ‘garota com problemas psicológicos em trajes de colegial’ como fetiche. Mas tudo isso desmorona quando percebemos que, além da personagem ser guiada por um homem como guru, o filme ainda termina com a narração em off constrangedora de Sweet Pea que traz frases de auto-ajuda fajutas como ‘você tem as armas que precisa para lutar contra seus problemas’ mesmo quando quem diz isso é uma personagem que só consegue sair do hospício por ter sido ajudada por um ‘anjo’, como ela mesmo chama Baby Doll.

Não vou entrar na questão da dinâmica de gêneros na Hollywood atual porque só isso daria um post inteiro. A realidade é que a possibilidade de Sucker Punch parar no imaginário feminino como exemplo de girl power é infinitamente menor se comparada a chance de meninos, rapazes e velhos tarados já terem Baby Doll como wallpaper de seu computador por motivos bem diferentes.

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12 Respostas to “Sucker Punch | Fetiches geek – The greatest hits”

  1. Taluh terça-feira, abril 5, 2011 às 09:29 #

    Achei a critica que vc fez extremamente pertinente e bem elaborada, mas existem alguns pontos que não foram expostos, como o fato e não ficar claro se Baby Doll matou msm sua irmã acidentalmente ou se o padrasto já a havia matado qnd BD chega ao local – ao ser disparada a arma acerta uma lâmpada e só poderia ter atingido a irmã caso ricocheteasse, oq eu ñ acredito. Percebi que existe uma grande discussão na internet a esse respeito, mas na minha opinião o padrasto foi quem matou a irmã mais nova de BD.

    Outro fator que achei extremamente confuso foi o fato de no final do filme percebermos que o motorista do ônibus era o guru de BD nos seus delírios… mas fiquei me perguntando como isso seria possível se ela nem chegou a conhece-lo, visto que estava internada e o motorista diz que estava só de passagem pela cidade. Então fiquei na dúvida sobre de que seriam os reais delírios…

    Enfim, Sucker Punch eh um filme esteticamente e sonoramente IMPECÁVEL…de encher os olhos e ouvidos – melhor trilha sonora EVER e parabéns a Emily Browning pela participação nas músicas – mas realmente a história em si deixou MUITO a desejar, acredito que nem o diretor sabia muito bem oq estava acontecendo da história… mas enfim.. é um filme que eu recomendaria aos amantes da arte.

  2. Josué terça-feira, abril 5, 2011 às 09:59 #

    Primeiro: Minha teoria é que BD já conhecia o motorista do ônibus pelo fato de que ela manda a que escapou ir pra estação. Por isso ele aparece nas fantasias.

    Segundo: BD não mata a irmã da que fugiu, pois as três já estavam mortas desde o início. Se você prestar atenção, uma delas fala que as 3 últimas que tentaram escapar morreram e mais a frente a própria irmã diz em alto e bom som que elas já estavam mortas.

    Para quem entendeu o filme por completo ele é muito bom.

    • gengis terça-feira, abril 5, 2011 às 13:34 #

      josué entendeu boa parte do filme. Pessoal tá muito mal acostumado com esses filmes de trama simples, daí aparece um filme assim bom e todos criticam pq não entenderam, e quanto aos clichês, aposto que vc amou Avatar, que nada mais é do que pocahonthas.

    • Raphael Fontenelle terça-feira, abril 5, 2011 às 22:54 #

      Curioso esse argumento de vocês de que quem não gostou do filme é porque não o entendeu. Geralmente ouve-se esse tipo de argumento vindo de pseudo-intelectuais tentando defender filmes herméticos, sem ter argumentos melhores. Vê-lo sendo usado para defender Sucker Punch é meio engraçado…

      @Josué: suas teorias são boas e, com relação a primeira, não há nada no filme nem que corrobore sua idéia e nem que a refute. Então ela é válida.
      Quanto à segunda, eu não disse que BD matou a irmã de Sweet Pea, e sim q ela matou a própria irmã… afirmação q, segundo o Taluh aí em cima, tb é controversa. Mas enfim…

      De qualquer forma é sempre bom vc sair de um filme tentando construir teorias para juntar as peças do quebra-cabeça (aliás, ela luta com um dragão pq, provavelmente, ele é a representação da enfermeira gorda que vemos no começo rapidamente e que possui um isqueiro, né?). Só que, como tentei deixar claro no comentário, apesar de conseguir enxergar essas tentativas do diretor de criar uma história com níveis diferentes de realidade para o espectador depois tentar montar as peças, acho que ele se auto-sabota na forma em que ele conta essa história.

      @gengis: Quê isso rapaz? Não se acusa nem seu pior inimigo de ter gostado de Avatar!
      Melhores modos da próxima vez.

  3. Renan terça-feira, abril 5, 2011 às 15:14 #

    Boa crítica,muito afida.

  4. Carlos terça-feira, abril 5, 2011 às 22:28 #

    Fiquei mais interessado em assistir esse filme!!!!!!!!

  5. Gadi sexta-feira, abril 15, 2011 às 16:04 #

    “afinal eu entendo o apelo que mulheres bonitas em trajes sumários lutando contra robôs têm.”
    eu li e reli e essa frase eh mt boa!!! sei bem como eh esse imaginario!!!
    mas me tirem uma duvida: antes de ler esse todos os posts desceram a lenha nos filmes!!!! eh isso mesmo so tem filme ruim ou vcs so escolherem os ruins pra comentar!!! obs blog mt bom visitarei mais!!!

  6. Gadi sexta-feira, abril 15, 2011 às 16:10 #

    e antes q comentem me adianto eu li a critica e axei boa nao li so “bla bla bla…peitos, bundas e mulheres matando robos gigantes em roupas coladas!
    abracos

  7. portigatto terça-feira, abril 19, 2011 às 14:35 #

    a bd é a mulher dos sonhos de todo homem e a mais linda que ja vi na vida, esta nos meus sonhos desde os 16 anos, só que quando vi ela na vida real até chorei pq as coisas são assim???

    • Raphael Fontenelle terça-feira, abril 19, 2011 às 22:06 #

      A vida é dura.

  8. Emerson quarta-feira, julho 27, 2011 às 22:13 #

    Quem é que escreveu essa crítica? Lendo eu tenho a impressão de que foi o Jose Wilker. Alguns dos comentários então… superam a crítica em matéria de ranzisse.

    Será que não entenderam que o legal do filme é exatamente o jeito que ele brinca com as varias facetas de realidade? Não é um filme de drama e nem ação ou aventura fantástica, é tudo isso ao mesmo tempo.

    Tenho certeza que o diretor teve sucesso naquilo que ele se propos fazer e ficou muito satisfeito com o resultado. Se ele quisesse um drama perfeito teria escrito A Lista de Schindler, mas não éra essa a idéia.

    A critica deve ser feita dentro daquilo que o diretor se propôs a fazer, e quanto a isso não tenho palavras, ficou perfeito.

  9. Adonis domingo, março 25, 2012 às 12:32 #

    Um dos melhores filmes que assisti. Girl power na veia! Preciso arrumar uma mulher parecida com as amigas da BD para mim. Fetiche total!

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