Não me abandone jamais | O tempo que resta

27 abr

É curioso que, mesmo tendo sido adaptado de um romance com suas trezentas páginas, Não me abandone jamais soe bastante como um pequeno conto.

Baseado no romance do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, o filme dirigido por Mark Romanek e estrelado por Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield, é uma curiosa e (infelizmente) cada vez mais rara mistura de ficção científica e drama. Os elementos mais fantasiosos servem apenas como background e ponto de partida para a história de Kathy H. (Carey Mulligan), uma jovem que vive em um mundo onde é possível viver mais de cem anos por conta dos avanços da medicina. O problema é que, à Kathy, essa dádiva não é possível.

Kathy e seus amigos irão, invariavelmente, morrer aos trinta.

Não me abandone jamais, o livro, é, com o perdão da hipérbole, um trabalho brilhante. Tanto na forma quanto no conteúdo, Ishiguro constrói um daqueles romances que podem ser apreciados tanto de forma literal quanto como alegoria. E a alegoria que o autor procura construir não é nada singela: a vida limitada de Kathy não é apenas a representação da  vida daqueles com claros impedimentos sócio-político-religiosos-culturais-etc (apesar de sua história poder ser claramente lida como uma metáfora para essas questões). Kathy representa a procura do ser humano por um entendimento do que é a vida, frente ao destino inevitável a todos.

Quando se fala em abrangência temática, não dá para ser mais abrangente que construir uma alegoria para toda uma vida, dá?

E é por isso que, como afirmei no primeiro parágrafo, o filme parece bem menor em abrangência na comparação. Quase um conto. De cara, Mark Romanek e seu roteirista Alex Garland (de A Praia e Extermínio) decidem deixar de lado aquilo que é uma das principais e melhores características do livro: na versão original, Kathy H. narra a história de uma forma quase arbitrária, deixa memórias de momentos diferentes se sobreporem, faz digressões enormes, conta sua história para alguém que ela imagina viver no mesmo mundo que ela e, ao se impor como dona da história, passa a não ser muito confiável. Para além de todo o simbolismo e interesse pela história desses jovens criados única e exclusivamente para servirem de repositório de órgãos para o resto da humanidade, Ishiguro decide dar o controle da história a uma dessas pessoas criando uma rica cadeia de significados já ao estruturar sua narrativa. Assim, um dos temas centrais do livro, a procura de uma ‘alma’, já começa a ser trabalhado na própria forma da história.

E um dos prazeres ao ler o livro é exatamente tentar entender mais desse universo de ficção científica em que Kathy vive. Ela foi criada em uma espécie de internato e, aqui e ali, palavras como ‘cuidadores’, ‘doadores’ e ‘concluir’ surgem naturalmente no narrar de Kathy e, aos poucos, vamos entendendo o que tudo isso significa até a constatação final de que, no mundo de Kathy (um final de século XX alternativo), a clonagem é uma prática comum e isso possibilita que seres humanos vivam mais de cem anos.

Kathy é um clone e seu único objetivo na vida é viver até o ponto onde seus órgãos serão retirados para o benefício de outra pessoa.

Mas Kathy não parece preocupada, muito pelo contrário, ela abraça seu destino sem muitos questionamentos. O que surge pelo caminho é a vontade de adiar o destino, mas nunca de mudá-lo. Aqui, a riqueza da novela de Ishiguro dá as caras: a Kathy que narra apresenta uma postura conformada frente a seu destino, narrando suas poucas tentativas de adiar sua ‘conclusão’ quase como quem narra as bobeiras que fazia quando menina. O que vemos é uma pessoa tentando, ao olhar em retrospecto, dar sentido a sua vida dentro das limitações que lhe foram impostas e, no processo, assumindo o lugar que a sociedade lhe impôs.

Há méritos nas escolhas do diretor durante o processo de adaptação. Ainda que as esporádicas intervenções em off de Kathy funcionem apenas para pontuar algumas passagens e, em alguns casos, deixar óbvio o que já estava subentendido, Romanek e Garland acabam decidindo deixar de lado o vai e vem da história que poderia se tornar, na tela, apenas virtuosismo narrativo.

O resultado é um filme cujo roteiro precisa ser bem mais explicito que o livro. O que fica claro logo no letreiro que abre a projeção que já situa toda a história nesse universo alternativo. Algo que, no livro, só fica totalmente claro na conversa de Kathy com a Madame já quase no final.

À parte a questão estrutural, Romanek ainda consegue trabalhar a maioria dos temas do livro. E o filme é belíssimo. Há uma espécie de melancolia outonal (se é que existe algo assim) que perpassa cada cena e todos os setores da produção contribuem para esse feeling. O design de produção evoca a nostalgia proveniente das memórias de Kathy e o fato da maior parte do filme se passar em ambientes rurais ajuda nesse quesito. Até Hailsham, o internato, surge como um lugar aconchegante mesmo quando, na realidade, ele não deixa de ser uma prisão para os protagonistas. Mas a lógica é clara: prisão ou não, o lugar é o mais próximo que Kathy teve de um lar e seu olhar nostálgico para o lugar reflete a necessidade do ser humano de estabelecer raízes.

O trio principal de jovens atores traz para o trabalho um tom interessante de uma espécie de inocência resignada. Enquanto Carey Mulligan mostra que já consegue carregar um filme como protagonista mesmo com poucos trabalhos no currículo e Keira Knightley tenta dar tridimensionalidade a um papel pouco explorado pela narrativa, é o ator Andrew Garfield que se mostra o centro emocional do filme com a inocência que ele dá a seu personagem Tommy. E assistir sua frustração após a tentativa de adiar sua ‘conclusão’ apenas tentando provar seu amor por Kathy é algo que ultrapassa o brega e consegue ser tocante exatamente por conta das atuações.

No fim, Não me abandone jamais é uma bela adaptação de um ótimo livro. Pode soar como auto-ajuda barata (o medo da modernidade) mas, acredite, ambos estão bem longe disso: o filme é sobre o que nos move como humanos, sobre como aproveitamos o tempo que temos e como as vezes gastamos esse tempo com idéias muitas vezes improdutivas do que significa isso tudo.

Como Kathy coloca, não tão sutilmente: talvez ninguém realmente entenda o que vivemos, nem sinta que teve tempo o suficiente.

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3 Respostas to “Não me abandone jamais | O tempo que resta”

  1. Elen segunda-feira, maio 2, 2011 às 22:48 #

    Tinha muita expectativa quanto ao filme, mas realmente nao me comoveu. Uma pena!

  2. Sarah Brito sábado, outubro 6, 2012 às 17:08 #

    Um filme muito lindo e triste ao mesmo tempo.. Gostei muito (:

  3. Camilla sexta-feira, outubro 12, 2012 às 17:19 #

    Adorei seu texto quase tando quanto amei o filme… Achei o roteiro incrível, principalmente por se sobressair com relação ao livro e mostrar, numa perspectiva ampliada, a realidade quase convincente das crianças, de cara, para que todo mundo pudesse entender desde o começo (ou quase isso) exatamente do que se trata a história e ficar tipo… “mas, ninguém vai fazer nada?”. Poucos filmes novos conseguem fazer isso. Ah! A fotografia! Ficou linda! Ressaltou a “melancolia outonal” e gerou maior envolvimento, sem dúvida. 😉

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