“Velozes 5” e “Se beber, não case 2”: que países são esses?

22 jun

De um lado a animação Rio, do brasileiro Carlos Saldanha, usa estereótipos ultrapassados para representar a Cidade Maravilhosa de maneira ufanista. Do outro, o quinto filme da franquia de ação Velozes e furiosos atualiza a mitologia que cerca o Rio, mas o faz de maneira a depreciar a cidade. O mesmo faz a comédia Se beber, não case! Parte 2 com a capital da Tailândia. Na continuação, os lobos viajam à Bangkok para o casamento de um deles, mas acabam embriagados e acordam, mais uma vez, sem lembrar de uma vírgula do que ocorreu na noite anterior. Só que, dessa vez, Bangkok é quem leva a culpa.

Mas afinal, que países são esses?

Comédia e ação têm cidades de países em desenvolvimento como cenário

Em Velozes e furiosos 5: Operação Rio, o ladrão de carros Dominic Toretto (Vin Diesel) busca refúgio no Rio de Janeiro ao lado da irmã Mia (a brasileira Jordana Brewster) e do cunhado e parceiro Brian O’Conner (Paul Walker), um ex-policial federal que mudou de lado. O trio é procurado pelo obcecado e marombado agente Luke Hobbs (Dwayne Johnson, o The Rock), que traz toda a equipe dos Estados Unidos e pede auxílio de apenas uma policial militar brasileira, pois acredita que toda a corporação seja corrupta, menos ela. Enquanto Hobbs procura pelos bandidos heróis, o trio descobre que o crime organizado é liderado por um mafioso vivido pelo português Joaquim de Almeida. Oras, tudo que eles precisam, então, é roubar toda a grana do camarada para conquistarem a liberdade. Solução simples. Realização, nem tão simples assim.

E aí começam as canastrices.

A maior delas está na produção, que, no meio do caminho, decidiu vir ao Brasil para rodar algumas cenas, afinal, seria muita falcatrua, até para Velozes e furiosos, usar o Rio como cenário sem nem ao menos filmar na cidade. Porto Rico serviu de dublê para a Cidade Maravilhosa. Para os nativos, a diferença é gritante. Mas, para estrangeiros, os detalhes são o que menos importa, afinal, coerência é a última coisa que o público de Velozes e furiosos vai cobrar do filme.

Quatro dias no Rio foram suficientes para criar expectativa nos brasileiros. Entretanto, tudo vai por água abaixo logo na primeira sequência de ação. Um trem-bala (!) cruza um deserto (!!) para transportar um carregamento de super carrões, que, obviamente, são cobiçados pela gangue. Para quem não conhece o território brasileiro, o momento pode até ser um dos mais empolgantes e aponta para uma mudança na ação da série. Velozes 5 ainda traz a correria das pistas, mas também entra no mundo de fantasia com ares de James Bond, cheio de lances impossíveis que desafiam a gravidade e a lógica. Porém, para os brasileiros, a adrenalina perde a força, já que é um pouco frustrante ver que a produção nem se preocupou em fazer a lição de geografia.

"This is Brazil!"

Ainda que fosse permitida, nesse caso, uma licença poética, fica difícil engolir momentos como o que Dom, desafiando Hobbs, diz: “Você pensa que está nos Estados Unidos, Hobbs? Isso é Brasil!”, e uma multidão de figurantes sacam armas e as apontam para os agentes do FBI, como se todo brasileiro andasse livremente armado. Desrespeitoso com a cidade e com o público, Velozes 5 utiliza as fragilidades geopolíticas e sociais da capital fluminense, explorando, superficialmente, o crime organizado e a corrupção policial apenas como trampolim para a ação. Novo fetiche de Hollywood, a favela serve de cenário para a cena que coloca os atores no chão e os põem pra correr, pular, atirar e tudo que um filme de ação costuma pedir, ampliando, assim, as possibilidades da franquia. Óbvia estratégia para render mais alguns episódios.

Cena de "Velozes 5" gravada no Morro Dona Marta é uma das poucas feitas no Rio

Enquanto uns tentam expandir os horizontes, outros resolvem reciclar uma fórmula de sucesso. Se beber, não case! Parte 2 opta pelo caminho mais fácil e adapta o roteiro original para um novo ambiente. O trabalho é tão preguiçoso que fica nítida a substituição de elementos: o bebê pelo macaco, o dente arrancado tem a mesma função da tatuagem no rosto, o amigo que some agora é um adolescente perdido e o mais óbvio, e perigoso, Bangkok é a nova Las Vegas.

"It's a monkey!"

Se no primeiro filme Las Vegas saía isenta de responsabilidade, Bangkok se torna a vilã da história. Casas de prostituição cheias de travestis, traficantes que usam animais para entregar drogas, comércio ilegal de armas, tudo isso filmado em ruas imundas, prédios em deterioração e boates promíscuas de uma cidade que sofre com apagões constantes. No filme, são estes os elementos que levam os personagens a tomarem as decisões mais absurdas e, sem os quais, o filme não chegaria aos 20 minutos. O roteiro, quando não sabe explicar determinada situação, logo coloca a culpa na cidade. “É tarde demais, Bangkok já pegou ele” ou “Existe uma razão para a cidade ser chamada de Bangkok”, em referência à palavra que remete ao pênis, em inglês. Se beber, não case! Parte 2 é uma coletânea de piadas grosseiras, ofensivas e sem criatividade. Impossível achar graça em uma série de piadas sobre o órgão genital masculino. Para tirar o espectador do tédio, a comédia tem Ken Jeong. Suas aparições ainda arrancam algumas risadas, mas não chegam a valer o ingresso.

Rio e Bangkok saem com danos significativos à imagem ao servirem de locação para grandes produções de Hollywood. Para os gringos, é fácil salientar características que, ao longo dos anos, se consolidaram no imaginário coletivo. Não é o caso de cobrar de produções estritamente comerciais um tratado antropológico de cidades em desenvolvimento. E claro que a Tailândia ainda precisa de alguns anos para se aproximar do crescimento brasileiro, mas é igualmente injusto retratá-la como um paraíso sem lei. Portanto, a caricatura que os estúdios americanos  tentam empurrar goela abaixo soa desrespeitosa e fora de moda, afinal, depois da crise financeira de 2008/2009, os países em desenvolvimento deixaram de ser o patinho feio para se tornar cisnes brancos do capitalismo. Parece que só os roteiristas de Hollywood ainda não perceberam isso.

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8 Respostas to ““Velozes 5” e “Se beber, não case 2”: que países são esses?”

  1. eduardo sábado, junho 25, 2011 às 08:15 #

    tanto o rio quanto bangkok podem terem sido prejudicadas, mas fora isso ambos os filmes são bons, se beber não case parte 2 é sem duvidas um dos filmes mais engraçados já feitos(ou pelo menos que eu vi) porque nos faz rir do inicio ao fim, mesmo que ofenda a cidade que por sinal é muito bonita(pesquise fotos na internet) mas é isso que os filmes de hollywood fazem, ofendem países sub-desenvolvidos, mas perder um filme engraçado só para não dar audiencia para eles já é exagero

  2. Caio Gomez sábado, junho 25, 2011 às 10:20 #

    Só uma breve correção. Jordana Brewster é Panamenha (Não tenho certeza quanto ao nome que se dá à quem nasce no Panamá.). Apesar de falar português, ela não é Brasileira, é filha de americano e brasileira, porém nasceu no panamá.

    • Matheus Carrera domingo, junho 26, 2011 às 14:45 #

      Bom, ela mesma disse numa entrevista, em que estive presente, que era brasileira. Pode ser que tenha as duas descendências, aí não sei.

      • Vandercildo segunda-feira, junho 27, 2011 às 03:12 #

        Ela se “considera” brasileira, não “é” de fato.

  3. Paula sábado, junho 25, 2011 às 16:43 #

    Eu fico impressionada com a ignorância da parte dos gringos.
    O mínimo que poderia ser feito é primar pelo respeito à população que abre os braços para os atores e diretores.

  4. praphael sábado, junho 25, 2011 às 21:28 #

    É… nós temos bananas, desertos e trem balas… Saúdade das linhas de conga do Rio de Matt Groeing… e sobre Bancock…. Bá, foi só um exagero de um esteriótipo já conhecido…

  5. Rurik domingo, junho 26, 2011 às 11:14 #

    Ótimo Post, ahh é bom lembrar que o trem que cruza o meio do deserto no Brasil, supostamente passava pelo Rio de Janeiro o.o… e incrívelmente a atriz(irmã do Don), que no filme, não era Brasileira era a ÚNICA que conseguia falar um português decente, muito porco as dublagens dos outros atores… A única coisa que dava pra ver que era no RIO era o Cristo Redentor, e SÓ… Filme escroto de mais 2 horas de tortura e 1 ingresso perdido

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