Contágio, de Steven Soderbergh

3 nov

“Stay away from other people”

Em determinado momento de Contágio, o doutor Cheever (Laurence Fishburne) pede para que sua esposa saia da cidade e não entre em contato com ninguém. Um alerta esperado, já que a doença que ataca o mundo pode ser transmitida por qualquer contato humano, mas que evidencia algo que Soderbergh parece querer trabalhar nas entrelinhas de seu projeto de filme-catástrofe: apesar de ser aquilo que eventualmente pode causar o nosso fracasso como espécie, o “fator comunidade” não só é essencial para a sobrevivência do homem, como é o que nos define.

Curiosamente, essa visão humanista é embalada por Soderbergh em um filme frio que, no final das contas, se perde em sua estrutura multiplot e que tem dificuldades em aproximar o espectador de seus inúmeros personagens. Para um filme que advoga para que nunca esqueçamos o valor das relações que nos une, isso é um problema e tanto.

De início, essa mesma estrutura multiplot oferece ao filme algo interessante: torna o drama abrangente e dá ao filme a chance de explorar inúmeras faces da situação.  Como em Traffic (mas de forma menos inteligente), Soderbergh e seu roteirista, Scott Z. Burns, criam uma colcha de retalhos para analisar como a sociedade que conhecemos se comportaria frente à ameaça de extinção. E para isso mira tanto no indivíduo como nas instituições*.

*[Nesse sentido, é curioso notar que a figura de maior autoridade que o filme apresenta seja um cientista (o já citado Dr. Cheever, diretor do Centro de Controle de Doenças) e não o presidente dos EUA, algo incomum em produções norte-americanas do gênero.]

Tendo em mente que sua estrutura talvez não permitisse que as histórias fossem desenvolvidas a contento, Soderbergh se apóia em seu elenco incrivelmente bem povoado para cortar caminhos. Assim, Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Marion Cottilard, Kate Winslet e Jude Law assumem as rédeas de personagens que já ganham peso assim que aparecem na tela. E toda vez que algum personagem interpretado por atores bem conhecidos morre, a plateia entende o peso da situação. E isso se estende também aos coadjuvantes, com nomes interessantes como Elliott Gould, Bryan Cranston e John Hawkes em papéis menores.

Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Jennifer Ehle

Das inúmeras subtramas, a que se torna menos interessante pelo pouco tempo disponível é a que traz Marion Cottilard como uma doutora que participa da investigação para chegar ao paciente zero e que acaba se envolvendo com as pessoas de uma pequena comunidade em Hong Kong. A situação não adiciona muito ao filme e parece apenas contribuir para criar uma visão de quão extensa a epidemia se tornou. O roteiro até tenta dar um final com cara de dilema moral para a doutora, mas o pouco desenvolvimento dessa subtrama cria um todo que não se sustenta.

Mais bem sucedidas, as subtramas envolvendo Matt Damon, Laurence Fishburne e Jude Law ganham mais tempo para serem desenvolvidas. Mitch, o personagem de Damon, é o “homem comum” que personifica a plateia, testemunhando a gradual jornada em direção ao caos. Fishburne é o chefe do CDC que precisa comandar o esforço para se chegar à cura para o vírus, enfrentando problemas puramente burocráticos pelo caminho e Jude Law é o blogueiro Alan, atento às teorias da conspiração, e que acaba ganhando dinheiro com a tragédia. Há bons elementos aqui: Mitch confronta a ideia de que sua esposa podia ter um caso extraconjugal; Cheever precisa achar um equilíbrio entre fazer seu trabalho em prol dos outros e usar as informações que tem para ajudar sua família, e Alan acaba se beneficiando ao espalhar informações erradas sobre o tratamento do vírus. A sensação, porém, é a de que esses vários elementos não são totalmente realizados na tela e acabam servindo apenas para compor o painel que Soderbergh e Burns querem criar. Um painel que, infelizmente, acaba só podendo ser apreciado à meia distância*.

*[Vale citar o trabalho da atriz Jennifer Ehle, que tem em mãos uma personagem padrão (a da cientista do CDC que lidera o time de pesquisa para se chegar a uma vacina) que basicamente tem a função de explicitar para o espectador informações sobre o vírus e a forma como ele age, mas que faz um belo trabalho em suas poucas cenas. Como na sequência em que visita o pai no hospital. Diferentemente dos outros atores, ela não tem o “fator fama” para jogar a seu favor e talvez por isso se destaque.] 

Os maiores problemas de Contágio são mesmo de roteiro, já que a direção de Soderbergh é bem segura e o ritmo impresso à narrativa é eficiente e cria uma atmosfera de tensão muito bem construída*. Nesse sentido, os vários planos de mãos tocando qualquer lugar em ambiente público constroem um ambiente de verdadeiro filme de terror para pessoas com mania de limpeza.

*[Acredito que esse cenário de repita nas sessões do filme: a cada tosse de algum membro da platéia, eu ouvia risos nervosos pelo cinema.]

A sensação geral é que Soderbergh queria brincar dentro de um gênero novo, aplicando um verniz de drama sobre algo já muito trabalhado em diversos blockbusters. O esforço é válido mas o resultado final deixa a desejar.

Veja também:

“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen

"Além da vida": Clint vs. a Morte

“Foi apenas um sonho” não sabe para onde ir

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2 Respostas to “Contágio, de Steven Soderbergh”

  1. Gabriel Pogginelli Benamor domingo, dezembro 4, 2011 às 08:59 #

    Só vi o filme essa semana. Bem, acho que você já disse tudo. A trama da Marion é tão inacabada que ela some no meio do filme e só volta no fim, quando tá na hora de encerrar os enredos e acabar a história. (Aliás, desde que ganhou o Oscar os personagens dela se resumem a meras aparições. Ela nunca está de fato no filme. Ela virou um Robert de blockbusters)

    Outra coisa que me incomoda é essa vontade de explicar tudo exatamente pra não ficar dúvida. Já tinham falado que o vírus sofreu a mutação depois de ser hospedado em um morcego e um porco, pra quê mostrar exatamente no fim. Parece um PS no fim de uma carta. Sacrificaram um final (o da filha do Matt Damon) que entregava melhor essa mensagem humanista que você identificou em troca de um “entendeu ou quer que eu desenhe?”

    Mesmo assim, achei um filme inteligente, mostrou vários pontos de vistas que eu nunca tinha pensado, que nunca tinha visto em outros filmes do gênero e tem tiradas como “Blogar não é escrever. É pixar com pontuação”. Não é espetacular, mas vale a pena.

    • Raphael Fontenelle quarta-feira, dezembro 7, 2011 às 16:32 #

      Pois é. A Marion parece perdida em Hollywood. Ainda que esteja trabalhando com bons diretores (o próprio Soderbergh, Woody Allen, Christopher Nolan), os papéis são sempre pouco interessantes… E quem viu Piaf sabe que ela é capaz de muito mais…
      É dificil pq parece tb que Hollywood tem problemas sérios com grandes personagens femininos… Parece que ela está aproveitando pra encher o bolso enquanto espera um papel mais digno, tentando manter alguma dignidade enquanto espera.

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