Em 2011… | “Contra o tempo” e “Super 8”

4 jan
Onde corremos atrás de algumas estreias do ano que passou.

–xx–

Contra o tempo, de Duncan Jones (Source Code, EUA, 2011)

Em seu segundo longa-metragem, Duncan Jones (filho de David Bowie) demonstra, mais uma vez, uma predileção pela ficção científica e por roteiros high concept. Em Moon (de 2009) a trama de ficção servia apenas como pano de fundo para um filme que se aproximava bastante de um monólogo com o talentoso Sam Rockwell como centro de uma narrativa que se interessava em investigar o que nos define como indivíduos. Já nesse Contra o tempo, Jones trabalha com um pé na ficção cientifica, outro em um filme de ação clássico.

O filme conta a história do soldado Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) que, através de um projeto pioneiro do exército americano, tem a missão de descobrir o responsável pela explosão de um trem em Chicago que pode ser o primeiro de uma série de ataques terroristas na cidade. O elemento sci-fi: o projeto coloca Stevens no corpo de um passageiro por oito minutos e esse é o tempo que o soldado tem para descobrir o culpado.

A trama remete a algo saído diretamente de algum episódio da antiga série Além da Imaginação. E o diretor parece saber disso especialmente pelo uso da trilha sonora composta por Chris Bacon que traz uma sensação de “brincadeira séria” ao filme. Duncan e seu roteiro conseguem manter relativo interesse no filme durante as diversas repetições dos tais oito minutos já que, além de ter vários suspeitos para investigar, o soldado também precisa tentar entender o que faz lá e qual o real sentido da sua missão.

Talvez esteja aí o principal problema do filme: não tentar desenvolver melhor seu próprio conceito. A partir de certo ponto, o filme se limita à investigação de Colter sem desenvolver elementos que poderiam render algo mais interessante, como a própria natureza do experimento e seus subprodutos. Talvez essa sensação fique mais forte pela maneira simples como a investigação se resolve e pelo fim proposto para a história de Colter. Ainda que não deixe de ser uma expansão do conceito proposto, ele é apenas uma tentativa de dar um final feliz para a história, fazendo com que o high concept se renda à fórmula.

O final é ainda mais frustrante por termos a chance de visualizar um muito melhor em duas cenas muito boas: uma onde vemos a real situação de Colter em uma espécie de cápsula de tratamento e a outra onde vemos o tempo parar dentro da “simulação”, com Colter e os demais passageiros em um momento de felicidade. Um final agridoce que uma produção de Hollywood não pode comportar.

No fim, Contra o tempo acaba sendo um esforço válido já que sempre é bom ver ficção cientifica que parta de conceitos interessantes. Mesmo que aqui o resultado seja apenas mediano, ainda assim é uma boa diversão e mantém Duncan Jones como um nome a ser acompanhado.

–xx–

Super 8, de J.J. Abrams (EUA, 2011)

“Vamos filmar uma cena onde a esposa do detetive diz que o ama e que teme por ele (…). Então, quando ele vai investigar essa coisa dos zumbis, você sente algo, você não quer que ele morra porque eles se amam. Faz sentido?” – Charles (Riley Griffiths)

De certa forma, J.J. Abrams e Quentin Tarantino fazem parte de uma mesma cepa de cineastas: aqueles que não só filmam o cinema, como também o amor deles pelo cinema. O que os separa, além dos interesses diversos de gêneros e épocas, é também a forma como eles realizam esse amor na tela: Tarantino trabalha com remixes, mashups, citações diretas, já Abrams é um criador profissional de fan fictions.

Pode parecer uma definição negativa do trabalho de Abrams, mas não é tanto assim. É só uma constatação de que seus trabalhos como diretor não se distanciam muito do de um fã criando em cima de histórias ou gêneros que lhe agradam (vide Missão: Impossível 3 e Star Trek). A diferença, é claro, é que Abrams tem talento em contar histórias. Ele é herdeiro direto de uma tradição clássico-narrativa que o cinema norte-americano aprimorou e engessou com o passar do tempo. Ele entende perfeitamente de estrutura de três atos, arcos dramáticos, plot points e o valor de ganchos bem colocados*. Mas, o mais importante: ele entende que é necessário criar identificação com os personagens.

*(Tanto em M:I- 3 como em Star Trek, o diretor começa o filme com uma espécie de prólogo que deixa o espectador em um local muito semelhante aos ganchos típicos da linguagem televisiva, lugar onde Abrams fez seu nome.)

Em Super 8, Abrams trabalha pela primeira vez fora de alguma franquia, mas ainda assim tem uma estrutura clara em mente: o filme infanto-juvenil muito em voga nos anos 80. Mais especificamente, filmes que Steven Spielberg produziu e dirigiu nessa época que possuíam tramas semelhantes e uma atmosfera de encantamento muito familiar para aqueles que cresceram assistindo aos filmes dessa época.

Aqui, Abrams trabalha como se estivesse preenchendo uma lista de compras bem clara: uma cidade pequena, um grupo de garotos que soam como adolescentes normais, alienígenas, exército, um comandante malvado, “daddy issues”, uma perda na família. Ele adiciona à mistura o seu amor pelo cinema e seu grupo de crianças está no meio de uma produção caseira de um filme de zumbis quando se envolve com um grande acidente de trem que libera uma criatura de origem desconhecida na cidade onde vivem.

O trunfo do filme é acertar o tom das crianças. E o diretor usa o velho truque de fazê-las falar todas ao mesmo tempo em várias cenas, gerando uma dinâmica realista. E a identificação com esses personagens é a chave para que o filme seja bem sucedido no que tenta fazer. Mesmo que os conflitos do jovem Joe Lamb (Joel Courtney) soem batidos (o garoto quer se aproximar do pai e tem uma quedinha por Alice (Elle Fanning), sua colega de escola), o filme faz de tudo para vendê-los com dignidade, culminando em uma última cena banhada em sentimentalismo mas que funciona por conta da boa construção da trama.

Curiosamente, o principal problema de Super 8 é o que o filme parece ostentar com orgulho: ao tentar se inserir em um tipo de cinema bem específico, fica a sensação de que tudo já foi visto e sentido antes. Mas, se considerarmos que muitos tentaram trilhar esse caminho e não conseguiram, o feito de Abrams (ainda que apenas uma pipoca saborosa) é algo que não deve ser considerado descartável.

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Uma resposta to “Em 2011… | “Contra o tempo” e “Super 8””

  1. Marcus Cramer quarta-feira, janeiro 4, 2012 às 20:13 #

    Sobre CONTRA O TEMPO, concordo com tudo, principalmente com o trecho “Um final agridoce que uma produção de Hollywood não pode comportar.” O fim me deixou bastante insatisfeito também.

    Sobre SUPER 8, o problema maior não é nem a falta de novidade, mas a tentativa forçada de emocionar. Até a trilha sonora exagerou naquele clímax final. Mas isso não quer dizer que não ache o filme relevante.

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