Drive, de Nicolas Winding Refn

2 mar

DriveÉ interessante ver o desafio que um filme como Drive representa para as distribuidoras. É um filme que não se encaixa totalmente na definição de filme de ação, nem suspense, nem policial. Mas que é, ao mesmo tempo, um pouco dos três. Se é necessário categorizar, Drive pode ser qualificado como um estudo sobre o herói de filmes de ação. Nesse sentido, o diretor Nicolas Winding Refn produz uma espécie de anti-Velozes e Furiosos (para ficar na mesma temática): um filme que esbanja estilo em um ritmo deliberadamente lento, economizando na ação propriamente dita.

O motorista interpretado por Ryan Gosling é esvaziado quase totalmente de individualidade a ponto de poder ser considerado um molde. O Motorista é o herói de ação dos últimos 40 anos de cinema norte-americano: ele é o solitário sem nome, o bruto com coração, o anti-herói capaz de atos de extrema violência, mas que busca um caminho mais doce. Com poucas falas, o personagem ainda assim não é uma simples função narrativa graças ao talento de Gosling, que preenche com carisma as lacunas vazias. E é interessante notar que até na trilha sonora essa vontade de preencher o vazio desse “molde” reaparece: uma das principais músicas da trilha diz em seu refrão “a real human being/ and a real hero”.*

*(Trilha sonora, aliás, que merece todo destaque, com seu synth-pop oitentista que, é claro, responde a uma necessidade de ser cool em uma época onde a década está na moda, mas que também dá ao filme mais uma referência de época, contribuindo para essa ideia de “filme de ação de todas as épocas” que ele parece querer vestir)

O herói se disfarça de herói.

Trouxe a ideia de um anti-Velozes e Furiosos, lá no início, na vontade de pensar brevemente o que constitui um roteiro de filme de ação. A analogia é batida, mas tudo funciona muito como uma montanha-russa. A dinâmica entre momentos de tensão e de relaxamento é o que impulsiona os filmes do gênero. E, dependendo da vontade do roteirista, há uma ênfase maior nas sequências de ação ou no material que as liga. Hollywood tem a tendência de tratar essa “matéria de ligação” de forma pragmática: ela existe para justificar as grandes cenas de ação.  O segredo de um bom filme de ação acaba sendo a habilidade com que o filme contrói esses momentos que justificam a ação. Nesse sentido, o roteiro de Drive (escrito por Hossein Amini), ao caminhar em uma direção oposta, parece estar comentando o gênero. Ele parece consciente em explorar com calma cada virada da trama. Seu foco é nos momentos de calmaria, nos momentos em que a tensão é construída. Seu ritmo é deliberado: a confusão em que o motorista se mete, ao tentar ajudar a vizinha Irene (Carey Mulligan), só explode, de fato, no terceiro ato, quando todas as peças da trama já foram devidamente apresentadas.

O diretor Nicolas Winding Refn (prêmio em Cannes por sua direção aqui), consegue um equilíbrio muito interessante entre os momentos mais calmos e os de extrema violência, fazendo com que esses últimos tenham o impacto que merecem. Talvez  a cena que melhor represente esse equilíbrio seja a que se passa em um elevador, já perto do fim do filme. Uma beleza de cena, ao mesmo tempo a mais doce e a mais violenta de todo o filme. Outro ponto alto da mão segura de Refn é o embate final entre “mocinho” e “vilão”, quando o diretor opta por filmar as sombras da luta entre os personagens, deixando claro que seu objetivo é filmar signos.

Direção segura, roteiro enxuto e atuações de alto nível (com destaque também para Albert Brooks e Bryan Cranston), fazem de Drive um dos exemplares mais interessantes a chegar ao circuito brasileiro nesse início de ano ainda sonolento por conta de uma temporada de prêmios abaixo da média.

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Uma resposta to “Drive, de Nicolas Winding Refn”

  1. Cartaz da Cultura domingo, junho 24, 2012 às 14:31 #

    O legal foi a adaptação ao livro de James Sallis. O diretor Winding Refn pescou algumas nuances da história e a transformou em um baita filme. Conseguiu ser melhor que o livro.

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