Os Vingadores | Maior que a simples soma das partes

14 maio

Pode parecer injusto medir o sucesso de um filme a partir de uma única sequência, mas creio que a própria Marvel é culpada disso. Ao investir em um experimento raro na história dos blockbusters americanos, e produzir cinco filmes de super-heróis que apontavam para a produção de um sexto que reuniria todos eles, pode-se dizer que o sucesso ou fracasso de Os Vingadores (The Avengers, no original) seria medido, em grande parte, pela cena em que finalmente os heróis se juntariam para combater o mal.

É um bom sinal, portanto, que o tal momento não só é uma ótima sequência de ação, grandiosa e divertida, como também é melhor do que qualquer coisa que tenha aparecido nos filmes solo dos heróis em questão. Nas mãos do diretor-roteirista Joss Whedon, Os Vingadores é cinema-pipoca bem executado.

(Não continue se ainda não assistiu ao filme)

E é bom que seja assim. Cada vez que um blockbuster faz grande sucesso, Hollywood se apressa em achar que todos os seus próximos lançamentos precisam seguir a mesma vertente. Foi o que aconteceu, em parte, com o estrondoso sucesso de Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. De repente, todos os filmes de super-heróis precisavam ter um pé na realidade e ser um tratado sobre GRANDES temas através do simbolismo inerente à essas histórias. A resposta da Warner para o fracasso de Lanterna Verde endereça muito bem essa questão.

Mas, por melhor que seja o trabalho de Nolan na franquia do homem-morcego (e é realmente muito bom), nunca é bom privar um gênero (e acredito que os filmes de super-herói já podem ser considerados um gênero em separado) de suas possibilidades. Em Os Vingadores, o gênero está em contato com uma tradição pulp vinda dos quadrinhos. Whedon dirige seu filme com o mesmo entusiasmo de um garoto que brinca com seus bonecos.

E esse entusiasmo parecia um pouco distante dos filmes da Marvel que pavimentaram o caminho até aqui. Não que sejam fracassos totais, mas pelo menos quatro dos cinco títulos ainda estavam muito preocupados em apresentar os personagens ao público e, se alguns podem até ser relativamente bem sucedidos nesse quesito (como em Homem de Ferro e Thor) eles ainda sofrem com a sensação forte de que os personagens (e vilões) não foram aproveitados em todo seu potencial.

O Incrível Hulk perde muito tempo em apagar o gosto agridoce que ficou após o filme de Ang Lee* e, olhando para trás, investe mais uma vez em um Hulk pouco interessante (mais sobre isso a seguir). Homem de Ferro e Thor são bons exemplares mas sofrem com essa trava auto-imposta. Já Homem de Ferro 2, mesmo com um Tony Stark sempre interessante, não decola em nenhum momento. Talvez por conta de um vilão fraco. Por fim, Capitão América, mesmo esperto na forma como embaralha a história do herói com a própria história dos quadrinhos, sai atrás por ser o filme que tem mais tempo gasto em “limpar o terreno” para Os Vingadores.

*(Agridoce porque, particularmente, gosto de Hulk, de 2003. Mas o trabalho estético muito interessante daquele filme não consegue superar a evidente esquizofrenia que é seu corte final. E ainda espero ler uma entrevista do diretor dizendo como ele foi obrigado a ceder seu lugar na ilha de edição ao chimpanzé que montou o último terço do filme)

Com elementos que, inseridos nas narrativas de cada herói, criavam um arco maior sobre a criação da Avengers Initiative, a Marvel acabou por criar uma série cinematográfica que não só é dificil de nomear (“Sextologia”? Ou o sempre tosco “Saga”? É melhor nem tentar…), como também tem poucos exemplos parecidos na história do cinema*. O fato é que a Marvel aplicou no cinema o que já faz há muito tempo nos quadrinhos: o crossover narrativo. Mas, ao invés de pular direto para o grande show, teve a paciência de construir uma série de filmes que aproximassem o público de cada herói e permitisse iniciar Os Vingadores com uma bagagem dramática melhor construída. É essa bagagem adquirida que faz toda a diferença.

*(Não estou querendo comparar estilos nem qualidades, mas em um pequeno exercício de memória, consigo lembrar de poucos filmes que partilham personagens que coexistem em um mesmo universo narrativo, como a trilogia do diretor Lucas Belvaux de 2002 (composta pelos filmes Um Casal admirável, Em fuga e Acordo quebrado) onde os personagens têm seus próprios filmes como protagonistas mas são coadjuvantes nos outros dois, e a Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski, cujos filmes partilham alguns elementos e onde, no último filme, sabemos o destino dos protagonistas dos outros filmes.)

E o diretor e roteirista Joss Whedon acabou se provando uma escolha acertada da Marvel para gerenciar o clímax de uma história em andamento. Responsável por algumas séries de TV (Buffy, a caça vampiros e Firefly) que conseguiram relativo sucesso em determinados nichos de audiência, Whedon constrói seu Vingadores como uma season finale televisiva: arremata linhas narrativas em andamento e propõe novas para uma “nova fase” da história. A forma como os filmes foram construídos anteriormente permite ao diretor iniciar a narrativa sem se preocupar em gastar tempo apresentando seus personagens e seus principais conflitos. Assim, a história de como Loki (Tom Hiddleston) se alia a uma raça alienígena para dominar a Terra utilizando o cubo Tesseract (visto em Capitão América e na cena final de Thor), já inicia em alta voltagem com a destruição da base da S.H.I.E.L.D, de onde Loki rouba não apenas o cubo mas também a lealdade de Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e do Professor Selvig (Stellan Skarsgård). Com a Terra em perigo, é hora de Nick Fury (Samuel L. Jackson) finalmente dar início à Avengers Initiative.

Ainda que o roteiro não precise se preocupar com apresentações maiores, ainda há muito o que andar para fazer com que os heróis finalmente se tornem um grupo coeso. De fato, essa é a parte mais preguiçosa do filme do ponto de vista narrativo, possuindo longos momentos que se assemelham a versões dramatizadas de algum jogo de luta com personagens da Marvel.

O que impede que o tempo gasto juntando as peças seja descartável é justamente a bagagem dramática adquirida. Assim, Whedon aproveita esses momentos para colocar em rota de colisão essas personalidades com egos bem diversos, sendo auxiliado por um elenco que está mais do que confortável em seus papéis. Principalmente Robert Downey Jr., cuja composição de Tony Stark parece ser tão próxima de sua própria personalidade que, no fim, soa como um trabalho inspirado. E até Mark Ruffalo que, pela primeira vez na pele de Bruce Banner, entra na trama como se estivesse desde o começo do processo.

Curiosamente, o melhor exemplo do bom trabalho de Whedon em gerenciar histórias em andamento talvez esteja na forma como ele constrói uma relação que ainda não havia sido mostrada nos filmes anteriores: aquela estabelecida entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Gavião Arqueiro. Tendo cada um aparecido em apenas um dos filmes anteriores como meros coadjuvantes de luxo (e, no caso de Gavião Arqueiro, como praticamente um figurante com três falas em Thor), ambos possuem arcos bem definidos em Os Vingadores.

O roteiro é esperto ao utilizar elementos da narrativa de uma forma polivalente. Assim, o fato de Gavião passar mais da metade do filme sob a influência de Loki não serve apenas para fazer a trama andar (dando ao vilão um poderoso aliado com habilidades suficientes para liderar um ataque ao porta-aviões da S.H.I.E.L.D), mas tem também a função de estreitar os laços entre o Arqueiro e a Viúva, já que essa última parece ser a única pessoa preocupada com ele. Assim, temos acesso a toda uma história que ainda não vimos (e nem vemos de fato, já que, excluindo um breve momento onde vemos em um monitor a Viúva e o Arqueiro em algum tipo de batalha, o filme, acertadamente, não cai na tentação de apelar para flashbacks). Ponto também para Johansson e Renner que fazem todo esse background ficar presente em suas cenas. Os dois atores fazem o público torcer por personagens ainda pouco conhecidos. E, posso estar equivocado, mas faz tempo que não vejo Johansson (sempre tão blasé) tão engajada e natural em um filme.

Mas, a bem da verdade, durante boa parte da projeção, se o filme está longe de ser ruim pelos motivos descritos acima, também não chega a empolgar totalmente. Mas então chegamos ao clímax, que não deixa de ser o clímax de seis filmes inteiros. E é nesse momento onde Os Vingadores, de fato, decola: a última meia hora nos mostra, finalmente, do que esses heróis são capazes.

Ainda que seja divertido assistir Capitão América assumindo o controle do grupo; ainda que seja interessante ver um Homem de Ferro, talvez pela primeira vez, totalmente focado em ajudar o grupo, sem (a maioria de) suas gracinhas habituais; ainda que tenhamos a chance de ver exatamente porque Gavião Arqueiro e Viúva Negra são capazes de fazer parte desse grupo; além de tudo isso, o grande show do último terço de Os Vingadores é mesmo de Hulk.

É sintomático que a icônica cena dos heróis se reunindo (com direito a travelling circular com um ângulo de baixo para cima e trilha sonora em crescendo) ocorra logo depois da transformação consciente de Banner em Hulk, que derruba uma das naves (?) alienígenas que pareciam ser indestrutíveis. No que diz respeito à criação de grandes momentos, Whedon acerta em cheio e cria o que talvez seja o momento mais icônico dos seis filmes.

Nessa última seção, o diretor parece fazer questão de compensar o tempo perdido com as últimas encarnações do personagem. Por mais que eu consiga enxergar qualidades nos dois primeiros filmes, sempre pareceu muito difícil administrar a versão “inconsciente” de Hulk. O fato de Banner não conseguir controlar o “outro cara” pode gerar alguns conflitos dramáticos relevantes, mas as histórias nas quais o monstro verde foi colocado acabaram por envolver Banner apenas fugindo de uma ameaça (no caso, o exército americano), o que limitava as possibilidades do personagem.

Ao seguir uma cartilha diferente, a nova abordagem de Hulk apenas situa a relação Banner/Hulk em um outro estágio de evolução*: o cientista parece conformado com a ideia de que terá que conviver eternamente com o “outro cara” e sua descrição do momento em que tentou se suicidar apenas para descobrir que nem essa escolha lhe era possível, é contada por Banner de uma forma tão corriqueira que indica uma transformação da sua relação com o “problema”.  A frase de Banner “O segredo é que estou sempre com raiva” indica que o cientista aceitou a outra parte de sua personalidade e que tem algum controle sobre o momento em que ela virá à tona.

*(Em determinado momento, Banner fala sobre como destruiu o Harlem “da última vez que esteve em Nova York”, mostrando que ainda estamos seguindo o mesmo personagem de O Incrível Hulk, onde foi interpretado por Edward Norton)

E, com essa nova abordagem, Hulk finalmente vira um super-herói diferente e, aqui, ele é uma força da natureza, imparável e impagável, sendo usado como alívio cômico nas melhores gags do filme.

Hulk esmaga e, no processo, volta a ser um personagem relevante.

No fim, Os Vingadores é bem sucedido não só ao fechar uma fase e começar outra no universo cinematográfico da Marvel, como também em ser um belo exemplar do que o cinema-pipoca pode oferecer.

E, se o caminho trilhado por Joss Whedon aqui servir de indicação (aumentando cada vez mais o escopo das tramas e tendo coragem de tomar decisões mais permanentes), estaremos diante de uma série cada vez mais interessante de assistir.

-xx-

Outras observações:

– O que a Marvel pode planejar para um próximo filme com os Vingadores? Com os heróis já devidamente apresentados, é hora de uma ameaça ainda maior e, quem sabe, novas adições ao grupo. Thanos, o ser que aparece na cena adicional durante os créditos, parece ser um caminho interessante. Agora, estou (muito) longe de ser um expert em quadrinhos, mas é do meu entendimento que o personagem é algum tipo de Titã/Deus que “corteja a morte”, seja lá o que isso signifique. Ótima oportunidade para a Marvel aumentar ainda mais os riscos para os heróis e, quem sabe, adicionar força dramática com a morte de um personagem mais importante, talvez?

– Falando em morte de personagem, a morte do Agente Coulson (Clark Gregg), ainda que uma boa ideia, parece ter perdido força no meio do caminho entre a concepção e a execução. Personagem criado exclusivamente para os filmes, Coulson era uma espécie de representante do arco “Iniciativa Vingadores” no decorrer da série. Sua morte deveria ser o impulso que faltava para que os heróis finalmente se unissem, mas a cena em questão é mais trabalhada de forma cômica que dramática. Sei que pode parecer sacrilégio para fãs, mas se o objetivo era aumentar a sensação de perigo, era melhor ter matado Nick Fury.

– Em uma espécie de “homenagem”, algumas cenas entre Thor e Loki são filmadas em um ângulo torto, diagonal, emulando os vários planos do tipo que existem no filme Thor. E também diverte o fato de Whedon escrever essas cenas com a mesma verborragia pseudo-shakespeareana do filme de Kenneth Branagh. E usar Tony Stark para ironizar o fato na cena da floresta (“Shakespeare in the park?“), é um bom toque.

– Sobre novos personagens: a Marvel tem problemas com alguns personagens que já participaram de aventuras do grupo nos quadrinhos. Homem-Aranha, Quarteto-Fantástico, X-Men e Demolidor, têm seus direitos para o cinema presos com outros estúdios (Sony e Fox, no caso) e só uma cooperação rara entre esses estúdios (pelo menos no que diz respeito à franquias tão lucrativas) pode mudar o cenário. O jeito é investir em mais continuações para os personagens já conhecidos e trazer novos de menor expressão. O que, no final das contas, talvez seja mais produtivo. No primeiro caso, Homem de Ferro 3 e Thor 2 já estão em andamento, com o primeiro sendo a próxima estreia da série. Com relação a novos personagens, a tendência é que o Homem Formiga seja o primeiro a ganhar um filme com a direção e roteiro de Edgar Wright (Scott Pilgrim contra o mundo).

Os Vingadores 2 está prometido para 2015.

– A boa recepção de Hulk (e, consequentemente, o sucesso de vendas de produtos relacionados ao personagem) acabou por levar a Marvel a reconsiderar o plano de ter Hulk apenas nos filmes dos Vingadores. Conversas de que o personagem pode aparecer em algum tipo de série para TV e até mesmo outro filme que poderia ser lançado também em 2015, já estão rolando. Particularmente, prefiro a ideia de um Hulk coadjuvante. E para você, qual seu Hulk preferido até agora?

–xx–

Veja também:

Lanterna Verde e Capitão América: heróis sem drama

“Thor”: ação com nuances de Shakespeare funciona

“X-Men: Primeira classe”, de Matthew Vaughn

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3 Respostas to “Os Vingadores | Maior que a simples soma das partes”

  1. gabrielbenamor terça-feira, maio 15, 2012 às 01:41 #

    Em primeiro lugar, eu gostei do filme. De verdade. Mas tem alguns pontos problemáticos. O maior de todos está no fim, quando o cientista acorda do “domínio do Mal” e diz que, mesmo quando tava lá, hipnotizado ou coisa assim, deixou um segredinho…

    Grande parte da trama do filme é a tal “influência maligna”, capaz de fazer uma pessoa trair crenças, paixões e etc, e no fim o cara diz que não era bem assim??? Achei muito tosco! Eles poderiam ter usado a mesma solução para fechar o tal portal, mas justificaram da maneira mais preguiçosa possível. Foram relaxados no diálogo. Ficou horrível.

    Em segundo lugar, o Thor e o Capitão América são atores bem limitados. Mas o Samuel L. Jackson tava de sacanagem. Não é possível. O cara consegue ser o pior em qualquer filme em que “atua”. Para mim, matar o personagem do Samuel L. Jackson sempre é a melhor solução. Concordo contigo (era melhor mandar o Nick Fury pra vala), mas por motivos diferentes.

    Por último, acho que o personagem mais bem construído é o Homem de Ferro. Não sei até que ponto é mérito do roteiro, do diretor, do Downey ou dos filmes anteriores. O Capitão América me parece meio vazio. Não entendi direito qual é a do cara. Ele é só um herói. Ponto. Acabou. O Thor queria salvar o planeta? Salvar o irmão? Os dois e ainda um terceiro objetivo à sua escolha? Não entendi também. E o Hulk, com três filmes e três atores, nunca se sabe… é pra ignorar um filme, ou os dois filmes ou pra considerar os dois?

    • Raphael Fontenelle terça-feira, maio 15, 2012 às 19:30 #

      Pois é, muito bem lembrada essa derrapada gigante do roteiro. De fato, é uma saída malandra demais para o problema.

      Sobre Thor e Capitão América eu não vou exatamente defender os atores, porque Hemsworth e Evans não são lá grandes coisas mesmo, mas acho que aqui eles estão atuando num nível de canastrice que eu acho que faz bem aos personagens, na verdade.

      Sobre a boa construção do Homem de Ferro acho que muito se deve aos outros filmes. Não só já passamos mais tempo com ele do que com os outros, como também é um personagem talvez mais fácil de gerar empatia com o público: ele é o espertinho, metralhadora de tiradas, que distribui apelidos a torto e a direito, o único que, na verdade, é só um homem “comum”, mas super inteligente e com muitos recursos pra se tornar um herói. E ainda tem a vantagem de que Robert Downey Jr. é realmente mais talentoso que os demais.

      Acho que o que você apontou no último parágrafo tem a ver também com a própria construção do filme. Acho que o diretor se preocupou apenas em ajustar as personalidades para que elas se encaixassem no grupo e não em desenvolvê-las mais. O que fez com que Thor e Capitão América continuem um pouco mal resolvidos…

      Seria interessante que, a partir de agora, eles usassem o grupo para desenvolver mais esses personagens através exatamente da convivência entre eles. Uma vez que chegamos nesse ponto, há espaço para isso.

      Sobre o Hulk, acho que eles estão considerando apenas o com o Edward Norton, mesmo.

  2. Karen Soarele terça-feira, julho 31, 2012 às 20:42 #

    Ninguém viu o Agente Coulson morto 😉

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