Harry Potter e as Relíquias da Morte – pt. 2 | Fim e clímax

18 ago

Quando a Warner Brothers comprou os direitos para adaptar o bestseller Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 1998, já se sabia que a saga do bruxo adolescente terminaria no sétimo livro, mas não se imaginava que a série teria fôlego para chegar ao sétimo filme. Não só chegou ao sétimo, mas ao oitavo, inclusive. Desde o estouro de 2001, quando A Pedra Filosofal entrou em cartaz, muitas outras obras de literatura infanto-juvenil tentaram enveredar pelo cinema, mas nenhuma conseguiu ir até o fim, como são os casos de A Bússola de Ouro e As Crônicas de Nárnia, por exemplo.

Boa parte do sucesso de Harry Potter foi favorecida pelo fato de os livros terem sido escritos enquanto os filmes estavam sendo produzidos, quase simultaneamente. No mesmo ano em que a Warner havia garantido a adaptação cinematográfica do primeiro livro, era lançado Harry Potter e a Câmara Secreta. A série experimentou o que, guardando as devidas proporções, acontece com as telenovelas brasileiras: J.K. Rowling pôde acompanhar a opinião dos fãs sobre os caminhos da história. Prova disso foi a decisão de deixar o garoto vivo, quando ela mesmo já havia demonstrado que desejava matar Potter. O apelo do público foi determinante.

No entanto, prefiro pensar que o amadurecimento dos personagens e da história, ao longo dos sete livros, foi o que mais pesou. Muitos começaram a acompanhar a obra com seus 12 ou 13 anos, a mesma faixa etária de Harry, Rony e Hermione. Rowling não deixou de atentar que, assim como os leitores, os personagens cresceriam, e justamente essa evolução geraria a identificação com o público de que a série precisava para se tornar um marco na literatura.

Felizmente, não foi só o fator sucesso que se repetiu nos cinemas. Esse amadurecimento também está lá e culmina em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2.

A entrada de David Yates na franquia marcou uma segunda virada na história. Em O Prisioneiro de Azkaban, as revelações sobre o passado da família Potter ajudaram o garoto a entender porque ele era mais do que apenas “O Menino que Sobreviveu”. Porém, até a morte de Cedrico e o renascimento de Voldemort, que ainda trouxe à tona a ligação entre as varinhas, Harry acreditava que a luta do bem contra o mal era algo para os adultos resolverem. Em A Ordem da Fênix, o primeiro filme dirigido por David Yates, Harry foi passando de adolescente revoltado, que se culpa pela morte do amigo, para um herói resignado, pois descobre que, no fim, somente ele poderá encarar Voldemort e acabar de vez com a guerra. Em As Relíquias da Morte, Harry entende porque não pode simplesmente ir para casa e viver um pouco mais, como sugere o irmão de Alvo Dumbledore, Aberforth, e por isso é obrigado a fazer sacrifícios e tomar decisões como ir sozinho ao encontro do inimigo ou destruir a Varinha das Varinhas, simplesmente porque era a coisa certa a fazer. Yates soube mostrar essa mudança dando destaque ao amadurecimento do herói – mais introspectivo e solitário, apesar dos amigos – e, nesse processo, à estranha conexão com Voldemort, por meio das visões que o garoto passa a ter.

"The Boy Who Lived come to die"

A franquia atinge o auge no último filme porque o roteiro de Steve Kloves também acompanhou o crescimento do público. Ele percebeu que os fãs já não precisavam mais de diálogos didáticos ou frases de efeito para compreender a ação. Por diversas vezes, o roteiro de As Relíquias da Morte: Parte 2 é bastante econômico e, assim, evidencia a intimidade entre Harry e alguns daqueles a quem ele tem mais afeto, como Hagrid, Hermione e Gina, pelo uso do silêncio ou de poucas frases: com apenas uma delas, Gina mostra a Harry saber que precisa deixá-lo ir quando ele a encontra no meio da busca pelo diadema de Rowena Ravenclaw. Já Harry não precisa entrar em detalhes para explicar à Hermione o que viu nas memórias de Snape, enquanto Hagrid simplesmente dá um abraço em Harry quando a luta termina, como se agradecesse por tudo, em nome de todos. Ou ainda, quando Snape, em uma de suas memórias, conjura um patrono para mostrar a Dumbledore qual a natureza da sua relação com a mãe de Harry, Lily. É como se nós, espectadores, estivéssemos ajudando a construir a narrativa. Daniel Radcliffe, mais experiente e envolvido com o personagem, também tem algum mérito, pois usa melhor as expressões para mostrar o peso que Harry carrega, principalmente ao caminhar para o encontro com Voldemort na Floresta Proibida. Toda responsabilidade da cena recai sobre o ator, já que ele não conta com o apoio de uma narração em off, como acontece no livro. Kloves ainda reserva espaço para humor e romance, mesmo em meio à guerra, tornando a história mais humana.

A direção de David Yates faz diferença em cenas simples mas cheias de significados, como na abertura, quando Snape, do alto de uma das torres da escola, vê os alunos de Hogwarts caminharem como se estivessem em um campo de concentração, ou quando Harry passa pelos amigos feridos e mortos em batalha no salão principal para, depois da vitória, refazer o percurso os ouvindo relembrarem histórias que acabaram de viver. Yates impõe um tom poético a momentos de tragédia: vemos os professores entoando magias de proteção como se fossem uma oração e Harry, Rony e Hermione passando pelo campo de batalha ao som de uma trilha suave e melancólica. A própria morte do vilão é retratada de forma esteticamente bela, no momento de melhor uso do 3D. A mão de Yates também se destaca quando Voldemort entra na mente dos alunos e funcionários de Hogwarts para dar seus recados. Ele muda as cores do ambiente para representar a presença do bruxo e faz duas alunas gritarem, isoladamente, para mostrar o pânico que é ter Voldemort dentro de si.

No entanto, David Yates escorrega justamente no tom mais contido que adotou para As Relíquias da Morte: Parte 2. A promessa de um fim épico gerou enorme expectativa, mas não se cumpriu da forma que muitos esperavam. A grandiosidade prometida está lá, seja na longa sequência do ataque à Hogwarts ou mesmo no destaque dado aos coadjuvantes. Vibramos com McGonogall tomando as rédeas ao enfrentar Snape e convocando as estátuas para a luta, a mesma liderança assumida por Neville entre os alunos que resistem ao controle dos comensais, enfrentando uma multidão de inimigos, executando Nagini, a última horcrux, e fazendo um discurso de lealdade à Harry bem na frente de Voldemort. Luna também tem seu momento de heroína ao se impôr à Harry, indicando-lhe o caminho para encontrar uma das partes da alma de Voldemort.

O ataque à Hogwarts

Só que Yates tem alguma dificuldade para lidar com a morte de personagens importantes, como Fred, Lupin e Belatriz Lestrange. A comensal mais fiel tem o seu melhor momento quando Hermione toma sua forma para entrar no cofre dela em Gringotes. A Poção Polissuco, que sempre rende bons momentos, é ainda mais divertida pelo trabalho brilhante da atriz Helena Bonham Carter, que capta desde o olhar até a maneira de andar da menina. Pena que Belatriz passa pelo filme sem contribuir em mais nada e morre no primeiro golpe de Molly Weasley. Lupin ainda retorna com a Pedra da Ressurreição e o roteiro tem uma oportunidade para explorar o drama do personagem, que deixou um filho órfão, na mesma situação de Potter, enquanto Fred só entra para a contagem dos mortos. O roteiro ainda deixa de lado detalhes como a origem da taça no cofre de Belatriz Lestrange, que pertencia à Helga Hufflepuff, uma das fundadoras da escola, e tramas mais importantes, como o passado da família Dumbledore e a relação com o bruxo Grindewald.

As ausências, porém, são compensadas pelo empenho dedicado a três momentos que fazem a diferença no longa: a fuga de Gringotes, a morte de Snape e suas memórias e o encontro entre Harry e Dumbledore no purgatório.

A fuga de Gringotes começa a se desenhar na cena do chalé da praia, quando Harry conversa com Grampo, e Hermione toma a Poção Polissuco. A tensão criada se sustenta, basicamente, pelo fato de Rony e Hermione estarem disfarçados, mas elementos que Yates insere – como o barulho dos sapatos no chão de mármore quebrando o silêncio, os olhares dos duendes do banco, o medo de Rony, a dificuldade de Hermione fingir ser Belatriz, sem falar na presença de Harry, sob a Capa de Invisbilidade, que já vem da obra original – potencializam o suspense. É irretocável também a fuga do banco, com a ajuda do dragão ucraniano. O animal, a propósito, deve render alguns prêmios à equipe de efeitos visuais. Além do desenho rico em detalhes, que expõem as marcas da violência sofrida, a fera é composta de maneira verossímil, sejam pelos gritos de sofrimento ou quando tenta escapar guiada por uma fresta e voando com dificuldade pelo céu de Londres.

Rony e Hermione sob efeito da Poção Polissuco

Na morte de Snape, Yates faz mais um ponto na adaptação da obra de J.K. Rowling. Ele opta por deixar subentendido o ataque de Nagini, pelo uso de efeitos sonoros e pelo posicionamento da câmera, de modo que só conseguimos ver a silhueta do professor e as manchas de sangue no vidro. O personagem se revela para Potter com a frase que todos que conheceram seus pais falavam quando o viam pela primeira vez: “Você tem os olhos de sua mãe”. A emoção continua quando Harry vê as memórias de Snape na penseira de Dumbledore. Yates corresponde no que se esperava ser o ponto alto de toda a saga. A edição de imagem e de som, que mescla falas com cenas do passado, mexe com a nossa memória afetiva, envolvendo-nos em uma série de emoções e surpresas, como a verdadeira intenção de Dumbledore ao proteger Harry e a real natureza da relação entre o garoto e Severo Snape. De um lado, Michael Gambon mostra o lado frio e calculista que não conhecíamos do personagem quando ele pergunta se Snape havia se apegado a Harry. Do outro, Alan Rickman, que até então se destacava por interpretar a indiferença de Snape, é ainda mais competente ao compor o homem marcado por um amor ingênuo e puro.

E, perto do fim, Yates traduz com êxito uma das sequências que ficaram obscuras na obra de Rowling: o encontro pós-morte de Harry com Dumbledore. O uso da luz estourada na fotografia, o diálogo entre Harry e o professor e a representação da alma de Voldemort que habitava o corpo de Harry evitaram o pieguismo em que a cena corria o risco de cair. Era um daqueles momentos em que Yates podia afundar o filme ou seguir adiante. Para nossa sorte, ele fez a segunda opção.

Assim como direção e roteiro, é de se notar também a evolução na trilha sonora. Com “Hedwig’s Theme”, John Williams fez com Harry Potter o mesmo que com outras importantes franquias em que trabalhou, como Indiana Jones e Guerra nas Estrelas: conseguiu eternizar um tema. Só que até o segundo, as canções eram um tanto natalinas. Em O Prisioneiro de Azkaban o mesmo John Williams mostrou que podia fazer melhor, impondo à trilha sonora o tom mais sombrio do filme. Já Patrick Doyle passou despercebido, com uma ou duas canções de destaque. Uma delas, a que abre O Cálice de Fogo, é marcante mais pelo momento em que se encontrava a saga do que pela música em si. Nicholas Hooper assinou as trilhas de A Ordem da Fênix e O Enigma do Príncipe. O compositor deu uma nova roupagem a temas compostos pelos colegas e fez talvez o melhor trabalho da franquia com a trilha do sexto filme, a mais encorpada da série. Coube ao jovem, porém experiente, Alexandre Desplat as canções das partes 1 e 2 de As Relíquias da Morte. O primeiro trabalho funciona, mas tem pouco brilho. O prólogo e a morte de Dobby são dois dos poucos momentos em que Desplat faz, de fato, alguma diferença. Já na parte 2, o trabalho evolui significativamente. Além de homenagear os temas criados por John Williams – como “Hedwig’s theme”, quando Harry retorna a Hogwarts, e “Leaving Hogwarts”, que salva o epílogo de uma tragédia -, Desplat cria canções totalmente novas que ajudam o trabalho de Yates de forma substancial. Destaque para “Lily’s theme”, logo na abertura, e “Statues”, o tema da batalha, que, menos marcado, se repete em “Courtyard apocalipse” e ainda no tema que encerra, de fato, a saga: “The new beginning”. Em harmonia com a direção objetiva e contida de Yates, Desplat compõe sem chamar mais atenção que as cenas em si, ajudando a tornar sequências como a da grande batalha mais fluidas e belas. Desplat, consciente do que aquele momento representa, cria melodias que traduzem o sentimento do fim: um misto de melancolia e saudades.

Bom que, dessa saudade, a gente vai gostar de sentir de vez em quando.

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2 Respostas to “Harry Potter e as Relíquias da Morte – pt. 2 | Fim e clímax”

  1. Gadi sexta-feira, agosto 26, 2011 às 18:26 #

    Excelente critica… deu vontade nao so de ver o ultimo filme como toda a saga!!! muito bom!!!

  2. Marcelo Longati Junior terça-feira, setembro 13, 2011 às 19:53 #

    Harry Potter foi excelente, uma saga inesquecível, espero que outras gerações ainda vejam 😉

    mentesempane.wordpress.com

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