Lanterna Verde e Capitão América: heróis sem drama

7 nov

Os Vingadores só estreia no ano que vem, mas parecia onipresente no último verão americano. Sua história vem se desenhando desde, pelo menos, Homem de Ferro, de 2008. A estratégia deve abrir espaço para mais ação no filme, que reúne alguns dos principais heróis da Marvel. Logo, Os Vingadores não deve passar por problemas comuns aos filmes de herói, que é o tempo dedicado à introdução à história, já que isso vem sendo mostrado, aos poucos, nos longas solo. Sendo assim, pode-se dizer que Thor e Capitão América já concluíram o prólogo de Os Vingadores. A diferença entre os dois é que Thor apresenta elementos do próximo longa de forma mais orgânica, enquanto Capitão América se sustenta nessa preocupação. Paradoxalmente, esse é seu principal atrativo, mas acaba revelando uma pobreza de roteiro.

Outro herói que passou pelos cinemas na mesma temporada foi Lanterna Verde, da DC Comics. Menos conhecido do público, porém não menos importante, Lanterna não tinha compromisso com nenhum outro longa e se encerrava em si mesmo. Mesmo assim, não soube aproveitar o espaço para desenvolver algumas tramas. O planeta Oa, lar dos Lanternas Verdes, ficou reduzido a alguns clichês do gênero. Por outro lado, Martin Campbell – diretor de dois filmes de James Bond, Goldeneye e Cassino Royale – faz um pequeno milagre na direção.

Nas bilheterias, Capitão América teve um bom desempenho, enquanto Lanterna passou quase despercebido. A Warner, estúdio responsável pelo herói verde, não gostou do resultado e já fez exigências para o próximo longa: pediu um filme mais sombrio. De fato, houveram alguns equívocos não somente por parte dos roteiristas, mas também por parte da equipe de arte, principalmente na caracterização do planeta Oa e de seus habitantes. Tudo parecia ter saído de um game retrô.

Entretanto, o que incomoda, de fato, é a superficialidade das tramas e a falta de densidade dramática dos personagens. Ambos os longas, além de sofrerem do mal dos filmes de herói, que é o tempo gasto na transformação do rapaz comum em herói, não desenvolvem de forma mais consistente os dramas pessoais e os dilemas dos personagens.

Em Lanterna Verde, Jordan é um piloto de testes que desafia as regras irresponsavelmente e, ironicamente, parece temer alçar voos mais altos, principalmente na vida pessoal. Tem um passado com Carol Ferris (Blake Lively), com quem convive desde criança, mas, por motivos não muito claros, porém compreensíveis, hoje são apenas amigos. A opção por deixar subentendido por um olhar ou uma troca de ofensas o passado e as relações entre Jordan, Ferris e o vilão Hector Hammond (Peter Sarsgaard) é a principal sacada de Campbell, mas soa como uma tentativa de driblar buracos deixados pelo texto de Greg Berlanti, Michael Green, Marc Guggenheim e Michael Goldenberg. O roteiro nem sequer desenvolve uma motivação para Jordan seguir como Lanterna Verde, a não ser a obrigação de salvar a Terra. Assim como quase tudo na vida, ser herói seria mais um item na lista de coisas que Jordan não levou adiante, mas o drama para por aí. Logo após o único momento em que roteiro e direção conseguem trabalhar com harmonia, quando Ferris conversa com Jordan sobre suas fraquezas em cima de uma torre de um aeroporto, Jordan está de volta à ativa. As dúvidas foram embora em cinco minutos.

Como herói, Lanterna é padrão: se arrisca para salvar a garota, faz sacrifícios pessoais e ainda precisa provar seu valor. Pelo menos, em pouco tempo, ele revela sua identidade secreta para a mocinha, o que evita mais constrangimentos. O vilão seria igualmente enfadonho, não fosse pela performance de Sarsgaard. Em Lanterna Verde, a luta entre o bem o mal é representada pela batalha entre a boa vontade e o medo. Não é um demérito do filme, já que é baseado em uma HQ, mas o conflito entre uma energia verde e outra amarela soa um tanto infantil. A origem de Parallax, a personificação do medo, tenta mostrar que a linha que divide virtudes e defeitos é bastante tênue, o que torna qualquer pessoa um vilão potencial. Essa seria a verdadeira luta que Hal Jordan teria de travar internamente, já que ainda precisa lidar com uma questão mal resolvida com pai, falecido em um acidente trágico quando ele era criança. Pena que o time de roteiristas parece não ter enxergado nisso tudo a oportunidade de tornar o filme mais maduro.

As falhas no texto não deixam o trabalho de Campbell fluir, justamente o contrário do que acontece com Capitão América. Joe Johnston funciona como diretor de ficções infanto-juvenis como Jumanji, Querida, Encolhi as Crianças e Pagemaster. Capitão América poderia entrar nessa lista, pois o diretor faz dele um filme de aventura, com pouco espaço para ação. A edição chega a cometer equívocos como um clipe com takes do herói em ação no meio da história que serviria como propaganda de desodorante.

O filme desperdiça o fundo histórico sempre muito rico da Segunda Guerra para fazer do herói apenas uma marionete. O papel do América no contexto é pouco explorado. É inacreditável que o jovem obstinado, que conseguiu se transformar em um super-homem, aceita, pacificamente, a condição de macaco de circo, fazendo turnês para incentivar os soldados americanos. O tempo dedicado a isso no longa o torna ainda mais cansativo. Tempo que, talvez, poderia ser dedicado à relação dele com o melhor amigo, Bucky. Depois que Roger entra no Exército, não se dá conta que o amigo está correndo perigo. Quando os dois se reencontram, a morte do rapaz serve de empurrão para que o América, de fato, entre na guerra. Não seria um problema, se isso acontecesse uma hora antes, e não a poucos minutos do final.

O embate entre o Capitão América e o Caveira Vermelha praticamente não existe. O vilão, covarde, foge da luta com América e se esconde atrás de uma arma de destruição em massa e de uma máscara que revela sua verdadeira aparência, fora todo o papo filosófico sobre como Hitler estava errado em relação à raça ariana. Depois do Agente Smith, Hugo Weaving tende ao overact e faz todo vilão que interpreta parecer que vai, a qualquer momento, lhe enfiar o dedo para fazer uma cópia de si mesmo.

Já Ryan Reynolds, que ganha de Chris Evans no quesito simpatia, parece mais à vontade em seu papel, enquanto Evans demonstra acreditar que apenas seus músculos são suficientes para cumprir a função. Seus diálogos com a igualmente apática Peggy Carter (Hayley Atwell) são de dar sono. Os coadjuvantes Stanley Tucci e Tommy Lee Jones, apesar do pouco espaço, se destacam pelo talento. Tucci brilha na cena em que conversa com Rogers momentos antes da transformação, fazendo transparecer com um olhar doce toda a sabedoria e responsabilidade que o personagem carrega. Jones, mesmo em um papel recorrente na carreira, desempenha a função com nítido entusiasmo, pelo menos.

Depois de X-Men: Primeira Classe, filme que mudou alguns parâmetros do gênero, qualquer longa de herói que se prenda à clássica estrutura homem comum descobre poderes sobrenaturais e decide salvar o mundo enquanto tenta descobrir o verdadeiro amor fica parecendo filme da Disney. Capitão América e Lanterna Verde chegam bem perto disso.

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Uma resposta to “Lanterna Verde e Capitão América: heróis sem drama”

  1. Adonis domingo, março 25, 2012 às 12:19 #

    Cagaram em cima do Lanterna Verde. Coitada da DC. Seus heróis estão sendo amaldiçoados com filmes horríveis, com exceção de Batman. Os quatro do superman, por exemplo, foram ridículos. É sempre aquele chato do Lex Luthor enchendo o saco com piadas bobas e é sempre a cafonice do homem de ferro. Os da Marvel são bem melhores.

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